Subversa

Cansado de lutar contra o mundo | O Ladrão de Chapéus

Ilustração de Marilia Moser


Cansado de lutar contra o mundo
Sem armas e sem sossego,
Com a honra despedaçada pelo passado,
E um presente vil a arrastar-se nas ruas;
Como um bêbado condenado à insanidade e à alegria,
Desabotoo do corpo, desde um silêncio antigo,
Coberto de sangue e fúria, um grito primordial!
Ó minha liberdade, minha paz, meu desamparo…
Ó minhas orações, todas elas!

Entre mim e os mortos há um só passo;
Entre a danação e a vitória, um ponto de vista.
Esqueço o futuro e dedico-me aqui
À única e verdadeira chance de existir… Agora!
Vazias todas as minhas orações, cheias de dor,
Cheias de esperança e autocomiseração.
Renuncio, sem mais, à virtude e à caridade.
Minhas orações, todas elas, repletas de súplicas,
Repletas de vícios… Ó minha alma, repleta e pagã.

Sobre estradas de asfalto e caminhos de terra
Os olhos vermelhos de poeira e poente,
Venho de onde as distâncias nunca importaram
E trago comigo a mortalidade das horas…
Tudo o que busco sopra suave e possível
E a liberdade aspira, tão só, à agonia do tempo;
O desespero é macio como a beleza dos campos,
E duro como as noites de frio indecente…
Ó minha alma, ainda temos a noite do sol e as estrelas.

Longas jornadas já não serão necessárias,
Dane-se a história! A tristeza do amor me pertence;
A revolta me toma de angústias e simbólicas preces;
Aprendo com os homens e por eles padeço…
Ó minha liberdade, bebe tua aura e reclama o céu!
Embriaga-te! Como se os rios fossem de vinho
E ora! Ora pela morte em teu desejo sem limite,
Que esta vida é tão fria e indecente
Quanto as noites de paixão no chão dos becos.

E antes que o esquecimento triunfe soberano
Sobre a nódoa do meu verbo quase morto,
Rogo aos loucos e inválidos um copo e o exílio;
Um coração à meia tarde e uma surra ao amanhecer…
Ó minha tristeza, minha tortura seminal,
Esconjura meu espírito dos laços ancestrais
E desata meu olhar a horizontes genuínos.
Ó minha tristeza, cala as orações,
E deixa que o grito me rasgue a garganta!


BOMQUEIROZ é de Uruguaiana (RS, Brasil) e nasceu embaixo de uma bergamoteira. | BOMQUEIROZ@GMAIL.COM | ler MAIS TEXTOS do autor.

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