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[CORRENTEZAS] Sobre um livro intitulado Волшебник (The Enchanter ou O Encantador) ou sobre a primeira palpitação de Lolita | Luizza Milczanowski


Sobre o conto que antecedeu Lolita, uma leitora nabokoviana e um livro intitulado O Encantador: Nabokov e a felicidade.

 

Fotografia: margraave

Pretendo rascunhar algo sobre o Encantador, os pontos de luz nabokovianos, a loucura por detrás da loucura, Dmitri [filho do autor], as dissemelhanças entre Lolita e O Mago (como é traduzido na edição da Nova Fronteira, mas que prefiro manter como O Encantador), sobre toda essa sensualidade perversa, as borboletas – citadas uma única vez -, o sofrimento de um prisioneiro que só enxerga as grades que o prendem.

Волшебник (Volshebnik), lançado em 1939, é o último conto escrito em russo por Vladimir Nabokov. O Encantador, a primeira palpitação de Lolita, segundo o autor, e, por outro lado, tão diferente desta. The Enchanter possui vida própria, suas cores particulares, tons de marrom madeira, verde musgo, vermelho em cachos, placidez pálida e mamilos róseos.

Lolita, por sua vez, com a profundidade de um grande romance, transborda, com luzes mais claras, o universo não mais de V. Sirin, pseudônimo do autor em 1939, mas de Vladimir Nabokov, em inglês, dezesseis anos mais tarde. Lolita possui luminosidades azuis, há lepidópteros que perpassam, a visão se turva, meninas cor damasco, óculos de tartaruga, pelo de antebraço e uma melodia distante, além da fumaça de cigarro, dos neons – ora “crianças de até 14 anos grátis”, ora “Caçadores Encantados”. Caçadores encantados. O encantador. Quantos detalhes, interpretações e linhas poderíamos traçar entre os livros de Nabokov, desde aquela primeira manhã à beira-mar às tardes na floresta russa de sua adolescência. Ada, de Ardis.

Esse é o mundo nabokoviano, essas são as espécies que podemos catalogar, mas que sempre estarão a se movimentar tremeluzentes, pulsantes, vivas. Não nos adianta capturá-las, seja com uma rede ou numa fotografia. Antes, é melhor observá-las – muitas vezes num rastro laranja, amarelo, azul ou negro – e mantê-las fixadas na memória.

Outro dia pensei sobre o amor por borboletas. Observo-as, tento me aproximar com muita calma, tentando conter minha avidez. É raro que eu consiga tocá-las. Coleciono esses pequenos instantes, em que suas patinhas entram em contato com minha pele, antes de voarem, de novo, minhas queridas.

Há muito medo de feri-las e seria incapaz de capturá-las. Mas é amor quase sofrido, platônico, pois, ao longe, limito-me a vê-las, a conhecê-las, a fotografá-las. Nunca poderia acariciá-las, sentir suas asas frágeis. Escolhi amá-las e escolhi amar Nabokov. Pelos Lepis nos conectamos num amor triplo de início infeliz. Apropriando-me um pouco da autora franco-iraniana Lila Zanganeh, é nosso amor de início infeliz, Nabokov. Você deixou de ser quando eu ainda não era. Você me reservou as visões de um louco, o xadrez, o exílio, e tantos pontos, cores, luzes, tantos caminhos verdejantes. Sim, é estranho como a pessoa comum não observa as borboletas. Partilhando meu amor compartilhado, percebo como você pôde perceber um Humbert, um Arthur, um…

Certa vez me disseram, acerca de Lolita: “Todos os homens no livro parecem pedófilos!”. Isso voltou a mim quando, lendo The Enchanter, o personagem desconfia de todos os homens como iguais, mas como – mais ainda (o que faz tudo ficar mais interessante)– diferentes. Tantos Quilty ao encalço de Humbert, quando é “outro Humbert no ávido encalço de Humbert e da ninfeta do Humbert”. (NABOKOV, Vladimir.). São os macacos do Jardim des Plantes, desenhando as grandes que os cercam, prisioneiros de sua obsessão. Em sua perversidade, Humbert só pode nos mostrar as lentes de Humbert, assim como os personagens de A Defesa, O Encantador, A verdadeira Vida de Sebastian Night, Fogo Pálido, dentre outros. Dentro de suas mentes adentramos em uma derradeira luta interna até o ápice da loucura.

E, entretanto, o êxtase.

Isso, o que a todos parece tão incompreensível e que Lila Azam Zanganeh nos propõe, é que, apesar da escuridão, da perversidade e crueldade, Nabokov nos leva ao êxtase num jogo refinado de palavras, numa poesia infindável, numa ironia mordaz, numa dança apaixonada com o verbo, na beleza estonteante que faz nossa alma vibrar! Isto é, até a escuridão se agita com o brilho da beleza. Podemos mergulhar e encontrar beleza e –sim – felicidade. Nada me fez mais feliz, nada me fez chorar e sentir como Vladimir Nabokov. Desse êxtase que só nos proporciona a arte, desses sentimentos tão agudos e intensos que só encontro na literatura e na natureza farfalhante.

Brindemos. “Play! Invent the world [and the word]. Invent reality!” (NABOKOV. Look at the Harlequins!).


LUIZZA MILCZANOWSKI |  20 anos, estuda Direito no Rio de Janeiro. Colaborou com alguns dos meus textos para a revista Desenredo, em 2015, com o projeto Folhinha Poética, em 2017, para a revista Philos, em 2016 e 2017, e para a revista Instransitiva, em 2018.

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