Subversa

Das metades | Astronauta de Pulôver Azul Néon


por um tempo estive equivocada

dei de ombros quando as mãos em pêndulo

haviam desistido das promessas

 

por um tempo estive equivocada

consultei as cartas como quem ri do destino

num grande desdém dos dias marcados

a manifestação das ausências cantando

pedras açoites e incensos

na varanda de uma casa qualquer

de frente para um lago sem água

 

por um tempo estive equivocada

e perdi completamente a mão para os versos

perdi a vontade das palavras o desejo das canetas

 

por um tempo equivocada estive inerte

caminhando em frente, como me disseram

olhando atenta para todas as direções

um galo cheio de lanças em cima dos telhados

nem gato miava nem vento batia nem raio acertava

era somente eu, galo sem canto, em cima do telhado

cheio de lanças direções norte e sul invertidos

apontando ora o céu e a lua ora o chão e o bueiro

e suas intenções

 

por um tempo inerte estive equivocada

o corpo girando em constelações sonhadas

um ajuste de contas; alguém abandone a fila

eu pego o lugar, nada me prende, dizia

mas alguém ficou na fila não trocou senha comigo

não permitiu meu adeus

era somente eu comigo mesma e uma fila enorme

e um número de senha maior ainda

sem data prevista no microfone

a moça não cantava tipo bingo

tipo bang, eu vou

não me deixaram, não foi essa vez a minha vez

disseram calma, asseguraram sobre ondas e bom marinheiro

tempestade em copo d’água – você o vê meio cheio ou meio vazio?

 

na entrevista para o emprego na livraria isso contou um tanto

perdeu a vaga: indica clássicos, oh, quantos clássicos não leu

você está no lugar errado postura errada verdade errada

minta, eles recomendaram

minta dizendo o que eu quero ouvir

tipo recém namorados & o amor eterno

o nome dos filhos escolhidos antes mesmo dos filhos

aquele espaço na estante para os diplomas

e a foto emblemática da formatura de ambos

tanta mentira bonita

 

mas desculpa, não dura

isso aí não dura, esse amor aí

não minto, olha, não dura mesmo

sempre tem alguém de saída

girando a chave na porta sem fazer alarde

como quando você anda na ponta dos pés de madrugada

só queria tomar uma água e o copo escorrega das mãos e traz jarra,

geladeira, parede, o teto, o vizinho, o prédio a baixo

era só um copo d’água – copo meio cheio ou meio vazio?

 

e aí alguém se machuca

mas esse alguém é só você

equivocada na eternidade momentânea das palavras

elas têm poder para quem sabe mentir

e aí alguém se machuca e é só você

com a senha que nunca é a sua vez

em cima do telhado disparando direções

sem sair do lugar, aquele galo sem canto

inerte e equivocado olhando chorando a lua e sorrindo o bueiro

dando de ombros com as mãos livres de promessas

mas o coração acostumado com “aguarde a sua vez”

que não é nunca

parece que não chega

a fila só aumenta

 

você generoso deixa a velinha passar

você generoso deixa a mulher com filho de colo passar

você generoso por que não mais cinco?

onde passam sete na sua frente por que não corre logo até o fim da fila?!

e as horas congelam os ponteiros do relógio

por falta de aviso prévio

por falta de estabilidade emocional do relojoeiro

 

as horas congelam o assunto capital

a hora decisiva “aguarde sua vez”

castiga a gramática

mastiga o estômago as mãos a senha

engole a própria fome

 

por um tempo

esse todo

estive equivocada

e o copo meio cheio segue vazio na fila

 

palavras aos montes ainda cortam o vento

é tudo o que ainda resta,

 

não me desculpo


FABÍOLA WEYKAMP tem seu primeiro livro de poemas “Resenhas da solidão – um livro de poesia e dor cotidiana”, publicado pela Editora LiteraCidade, Belém/PA, 2015; obra ganhadora do Prêmio LiteraCidade Jovem, 2014. É colunista da Revista Subversa | FABIWEYKAMP@YAHOO.COM.BR

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