Subversa

Desinventar o objeto: pequeno ensaio pela disfunção das coisas | Henrique Grimaldi Figueiredo


Henrique Grimaldi Figueiredo

Balzac já dizia que nenhum livro, nenhuma escrita ficcional, teve o poder da notícia. “Ontem, às 16h, uma jovem se jogou no Rio Sena de cima da Pont des Arts”. Há uma crueza quase clínica nesse “jogar-se”, o lugar da potência, de fato, encerra-se no ato suicida, em um despencar que é por si e converge para si um manifesto pessoal de despedida. Pela inacessibilidade ao então-da-coisa, ao momento poético do lançamento, cabe-nos interpretá-lo sob o prisma de uma realidade documental e apriorística.

O real guarda em si uma necessidade pelo palpável, minorando o que habita-para-além, ao enclausurá-lo na objetualidade da coisa. Eis aí a perversidade do real. Na realidade, a constatação do suicídio é uma constatação do objeto do suicídio: a Pont des Arts, o horário preciso, o corpo da jovem que cai, o Rio Sena que o engole, a transmissão escrita da notícia. Nada no real – neste real – opera uma leitura pelo sensível, pela pessoalidade do ato: os porquês líricos do objeto: Por que suicidar-se? Por que, simbolicamente, a Pont des Arts? O porquê da escolha por um funeral aquático?

Essa dialética da privação, isto é, de afastamento do lírico, caminha no sentido de um evitamento do trauma, de um retorno ao real como exclusão da edição do mesmo. À fuga da materialidade da ação que Slavoj Zizek diz se tratar da [ambiguidade fundamental da imagem no pós-modernismo, um tipo de barreira que permite ao sujeito manter distância do real, protegendo-o contra sua irrupção conquanto seu hiper-realismo excessivamente intrusivo evoque a náusea do real […] a passagem da realidade como efeito da representação ao real como traumático][1]; é, em sua essencialidade, o apego à substância anti-traumática da matéria, que esfacela na evidência argumentativa do registro as nuances poéticas que tentam performar sua fuga.

Se o real constrói-se, em parte, na dependência do objeto constatável, há de se reinventar a experiência do objeto como alternativa à uma ideia de realidade fechada: um real vivenciado em seu meio e não na incontestável documentação de seu fim. Jacques Rancière irá trabalhar o duplo real-ficção em seu momento de reconciliação, no qual, [a ficção não é o oposto da realidade, mas a construção de um senso da realidade][2]; ao tornarem-se híbridas, tais categorias promovem um escape, ensaiando um real outro, possível como produção de imaginário.

[Desinventar|Reinventar] o objeto é ação de texto [peço aqui licença por um texto que não é só escrito, mas pós-escito: texto-imagem, texto-rua, texto-sexo, texto-pixo]. Na segunda estrofe de seu “Uma didática da invenção”, Manoel de Barros nos escreve,

II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

Desinventar, contudo, exige compromisso poético. É ação colaborativa [eu, o texto, a imagem, o outro, o jogo], em que a realidade documentada dá uma pausa e gera arquivos inauditos. É o pente-begônia de Barros, mas também o cachimbo-pintura de Magritte (ceci n’est pa une pipe), e o GIF-NÃO GIF em nossa política memética (ceci n’est pa un gif); é a poesia propositiva de Yoko Ono, as orientações de Allan Kaprow, o corpo-carimbo-azul de Yves Klein, a xícara felpuda e fetichista de Méret Oppenheim. Desiventar o objeto é performar um simulacro e desfazer os compromissos. É romper as linhas duras das narrativas e de um roteiro do viver do qual nos fala Deleuze, é permitir a flexibilidade das cordas, de um devir desviante, arrebatador, lugar-outro, realidade-outra, ser-outro, objeto-outro.

A desinvenção é ação abolicionista das fronteiras entre as existências que são dignas ou não de representação. É escrita imago-sensível como processo de invenção, não aplicação de ideias. Assemblage processual entre o comum e o estranho. Tendemos a olhar os objetos em medida de rasura, como se suas existências se encerrassem na funcionalidade de seus usos. Ao emancipar os objetos de seus argumentos, de suas existências roteirísticas, devolve-se a eles uma espécie de consciência, e dota-os de um diálogo que é, ele próprio, construtor da realidade. É o que Georges Bataille operava ao elaborar suas semelhanças informes; uma arquitetura das dessemelhanças como mecanismos de inauguração das analogias sensíveis, [a possibilidade de unir num ponto preciso duas espécies de conhecimento até aqui estranhas uma à outra ou grosseiramente confundidas dando a essa ontologia sua consistência inesperada: o movimento do pensamento se perdia por inteiro, mas por inteiro se reencontrava][3]. São as patas de boi decepadas nos abatedouros de La Villete, fotografadas por Eli Lotar – nº 6 da Documents[4], 1929 – e as pernas de bailarinas saindo de cena em Fox Follies: eis aí as coincidências bataillianas, sua poética de semelhanças disformes na desinvençao dos objetos cotidianos.

Fotografia: Eli Lotar, “Slaughterhouse” (1929) presente no número 6 da Documents. Fonte: artnet.com

Ao repensar o real a partir dos tensionamentos das invenções desinventivas, o objeto torna-se verbo: verbo inaugurador de novos modos de agir, verbo incognoscível, verbo em falta de uma língua, portanto, verbo órfão, que pega jeito no [des]uso da ação.

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio

(Manoel de Barros, in: “Uma didática da Invenção”)

Quando o objeto-verbo pega delírio aí o real foi refeito, mas apenas por um momento, até uma nova desinvenção. Contudo, no breve e efêmero momento em que desinventou-se o real, cabe-nos usufruir dos não-paradigmas numa recriação de nós mesmos, um Eu autárquico e [des]governado em instante de liberação. O delírio do objeto é também auto delírio, momento de reescrita em que, finalmente, o suicídio analítico em Balzac torna-se o espaço da compulsão – pelo fumo, por açúcar, ou quaisquer outras drogas marginais – boias preliminares de salvação, quando o golpe ainda dói e a ponte é somente o melhor lugar de onde se arremessar.


Notas:

[1] ZIZEK, Slavoi. Grimaces of the Real. October nº58, Cambridge, 1991.

[2] RANCIÈRE, Jacques. Entrevista à Folha de São Paulo em 25 de março de 2018. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/03/a-escrita-e-invencao-nao-um-processo-de-aplicacao-de-ideias-diz-jacques-ranciere.shtml

[3] BATAILLE, Georges. La expérience intérieure. Paris: Gallimard, 1943.

[4] Revista surrealista editada por Georges Bataille em Paris entre 1929 e 1930.


HENRIQUE GRIMALDI FIGUEIREDO | arquiteto, possui formação livre em museologia e curadoria pela CSM – London College of Arts. Encontra-se mestrando em Artes, Cultura e Linguagens pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

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