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Dias Úteis, de Patrícia Portela: perder a vida por não ter tempo para vivê-la | Cláudia Capela Ferreira


Os Dias Úteis (Editorial Caminho, 2017) de Patrícia Portela não o são senão utililitários, repetitivos, ainda que imprevisíveis, como um jogo cujas regras, a julgar pelo prefácio, dificilmente se discernem.

Trata-se aqui a modernidade improfícua, árida e infértil, da globalização e consequente produção de contornos obsessivo-compulsivos, projetando o sujeito num contínuo adiamento de si, sem que se perceba se o sonho é um objetivo preciso e factível ou mero enunciado impalpável de uma desculpa para continuar a viver/ jogar.

Genologicamente, o livro trai os princípios que lhe poderiam estar associados, esboroando a caraterização do conto, numa proposta de hibridização que não chega, porém, a consolidar-se. De facto, nem é esse o propósito destas ficções, abertas, algures entre a imposição do fugaz, do episódico, e a problematização ensaística do eu em renúncia de si mesmo, protelando. A fordização do humano instaura-se aqui no seu terrível esplendor, na consecutiva repressão do domínio reflexivo e individual, dilacerado diariamente pela utilidade vã da produção massificada. O tempo, irónico, é completamente indiferente ao indivíduo. A morte, essa, é “um grande alçapão”. A vida, um jogo, a que nem sempre se toma sentido, e é espevitada em horas de espetáculo, entretenimento, como distração desses dias comuns, (in)úteis. Aprecie-se a expressão “dias úteis” como um sarcasmo à inocuidade do rito esvaziado, na auto-anulação diária, mensal, anual, das diversas vozes narrativas deste livro.  No sacrifício religioso ao nicho cíclico da produção incessável de resposta ao consumismo incessante, como forma de colmatar um vazio interior, estas vozes modernas desvirtuam-se e amalgamam-se, aligeirando divergências, mas também acréscimos espontâneos de criatividade e reflexão. Desta forma, facilita-se a livre circulação de bens, enquanto se condena a das pessoas, num processo assaz… útil às siglas operantes hodiernas, IVAs, PIBs e NIBs.

Para Patrícia Portela, a vida, nestes termos, é um fetiche de alienação, pelo que, é bem possível, os indivíduos se consomem no mesmo êxtase com que tragam o imediatismo da sua relação com o real, cujos contornos se delimitam fantasmagoricamente, conquanto se limitem à padronização de um objeto de produção. Poder-se-ia pensar, desta forma, que as curtas ficções se referem ao imediato de forma imediatista, mas Os Dias Úteis abordam o objeto das suas demandas de forma serena, biográfica, quase confessionalmente, sem qualquer resquício de autocomiseração, tampouco rebeldia, o que, por si ‒ e se a primeira prevaricaria e a segunda toldaria ‒ constituiria, porém, verdadeira instrução de retificação de propósito. Isto, se a vida tiver um e se ainda for possível.

Nesse sentido, a didascália, como texto premonitório, após o prefácio e antes (?) dos relatos ficccionais ‒ diluindo as configurações discursivas ‒ faz instaurar um pacto com o leitor, perfazendo-o confidente, ao jeito da autobiografia, como que excluindo e assumindo a voz narrativa nesse jogo da autoficção. De facto, somos convidados: “Mas não me leias para passar o tempo. Lê-me como se te fizesse diferença. Como se eu te acontecesse” (Portela, 2017), na tentativa áurea de colher os frutos da utilização da primeira pessoa. Mas mais interessante ainda é este pedido claro de participação, inscrição e manuseamento da palavra: “Reescreve-me onde achares necessário, acrescenta-me onde me achares incompleta, marca-me no canto inferior as tuas paragens, risca-me a caneta nas impressões” (Portela 2017). Trata-se, pois, da original instrução dos poetas aos atores, da anotação ao texto principal, indiciando-nos, como leitores, nesse perverso e adorável jogo de máscaras que a literatura constitui, viva e imanente, dada a completude instaurada pela receção. De facto, a leitura há de constituir-se como um aditamento ao texto principal. Esta noção de agilidade, tão cara ao texto dramático, infere-se no livro de Portela, instaurando um sentido performativo, e, naturalmente, anulando limites, ou, mais interessante ainda, permeando, raposinamente, a biografia, o conto, o dramático. Puro jogo. Como a vida, à qual se deve retornar de óculos escuros, já que “O regresso à realidade é sempre um choque demasiado iluminado e nem sempre mais construtivo” (Portela 2017). Neste sentido, ausculta-se um pendor compromissado, ou não nos fosse confessado, “Nem todos os que se escrevem aceitam ser carne para canhão mas quase todos gostaríamos de, com isso, fazer a diferença. Caso contrário, para quê ler?”


Referência: Portela, Patrícia (2017): Dias úteis. Alfragide: Editorial Caminho (ed. digital)


CLÁUDIA CAPELA FERREIRA é trasmontana por nascimento e europeísta por convicção. Doutorou-se em Estudos Literários Portugueses com uma tese sobre a poética torguiana. Escreve sobre literatura e cinema.

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