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E agora? | Autolusografias

Quando era pequena costumava subir ao terraço de casa e olhar fixamente para o edifício da escola que ficava quase no outro extremo da pequena aldeia. Muitas das vezes, achava que seria muito mais rápido se eu pudesse ir a voar para a escola, ir a direito, sem paragens, sem ter de atravessar ruas. Queria voar como os pássaros. Seria, certamente, mais divertido e daria para quebrar a rotina. A minha mãe ia levar-me e buscar-me e, no percurso onde havia passeios, ela deixava-me correr sozinha, sem lhe dar a mão. Não que eu corresse rápido (porque não corria), mas, naquela altura, a correria no passeio dava-me uma sensação de liberdade e de rebeldia. Só queria crescer e tinha ansiedade de qualquer coisa que não sabia muito bem definir. E fazia planos, imensos planos. Acima de tudo, fazia planos acerca do que queria ser quando fosse “grande”.

Aos sábados à tarde, fazia boca doce ou mousse de chocolate com a minha tia e tinha a mania de rapar o que restava na tupperware com as mãos. As roupas eram feitas pela avó e pela mãe, no pátio da casa dos meus avós. Tecidos, lãs, fechos e fitas andavam pelo chão e, muitas vezes, eu pedia à minha avó para brincar com os lenços dela. De lenços de todas as cores fazia vestidos e saias que, à época, deveriam ser avant-garde. Outras vezes, calçava os sapatos de verniz da minha madrinha e vestia os casacos tantos números acima e imaginava que era uma executiva, emancipada, independente, adulta, muito senhora de mim.

Os lenços da avó, os livros do avô. Costumava pedir à avó para brincar com os livros do avô: queria expô-los no sofá e fazer de conta que tinha uma livraria. E ela tinha tanta paciência… Ajudava-me a tirar os livros da estante e colocá-los no sofá para vender a alguém imaginário. Tinha muita curiosidade em saber o que aqueles livros diziam ou significavam… O Rosa Minha Irmã Rosa, da Alice Vieira (livro que li e reli e que agora me pertence), fazia parte da coleção, mas também livros de Saramago. Lembro-me de ser bastante pequena e de perguntar ao meu avô qual era a história do livro A Caverna do Saramago e de folhear com muito cuidado um livro grande, de capa dura, com a lombada descolada e com paisagens belíssimas. Brincar ao faz de conta era um mundo de possibilidades no qual tudo era possível. E agora? E todas as expectativas e todos os planos, e todas as ideias feitas? Para onde foram?

Passar uma vida a planear e outra a ver a vida acontecer. Estudar para um dia ser alguém. Mas o que é ser alguém? A simplicidade, a inocência de outrora foi-se e a única certeza que se tem é a da passagem do tempo. E a clarividência da idade adulta não é nada, nada daquilo que se pensava. E estar todo o tempo a tentar provar o nosso valor e o excesso de autocrítica, mais o raio da economia que não anda para a frente como devia… Os sonhos, as ideias ficaram escritos em caderninhos; todas as expectativas deram lugar à contingência, ao pragmatismo.

No entanto, a solução talvez passe por ler Alberto Caeiro para que ele nos lembre que afinal pensar é estar doente dos olhos e que não precisamos de nenhum sentido abstrato para as nossas vidas. Saber que o mais importante é fazer perguntas porque ninguém tem todas as respostas. E lembrar Almada, sempre clarividente: “Por nada neste mundo sofras a existência: deixa-te viver.”.


ZÉLIA MOREIRA (Porto, 1990) é licenciada em Língua, Literatura e Cultura Inglesas e mestre em Literatura Comparada. Lê, escreve e ensina. Publica na Subversa ao sétimo dia de cada mês. | ZELIAPGOMES@GMAIL.COM

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