Subversa

Isabela Figueiredo e o jugo salvífico da escrita [Cláudia Capela Ferreira] | Das Áspides de Cleópatra


Fotografia: acervo da revista

Feet don’t fail me now
Take me to the finish line

Lana del Rey

Imagine uma casa por cujas assoalhadas vai caminhando, descerrando portas e espreitando. Olhe primeiro à sua volta, no indeciso e pueril pudor da descoberta de um segredo. Deixe-se, depois, seduzir e ultrapasse a soleira, o limiar da intimidade, penetre, então, os quartos, não resista a revolver os papéis da secretária impercetivelmente, cheirar os lençóis, se for o caso, deixe que os dedos lambam o pó dos móveis se o houver. Imagine que a casa não é sua: é possível aceder à alma dos habitantes? Isabela Figueiredo exercita essa possibilidade em A Gorda – obra editada em 2016  em Portugal pela Caminho e, recentemente, pela Editora Todavia, no Brasil, onde a autora participará na Festa Literária de Paraty -, acenando-nos da porta de entrada: “Quarenta quilos é muito peso. Foi os que perdi após a gastrectomia: era um segundo corpo que transportava”. Logo depois, acrescenta o discurso dos médicos: “fizemos o nosso trabalho, faça agora o seu e aguente-se. Aprenda a viver sozinha” (Figueiredo 2016: 19), dando o mote a dois temas fundamentais deste romance, epíteto sob o qual a obra é apresentada, indiferente à miscigenação dos géneros: a vivência da irredutibilidade da solidão e o lugar da gorda na sociedade.

Ora, um e outro tema não são indiscerníveis; de facto, e como toda a corrente narrativa do livro, cujos assuntos se mesclam, recusam e voltam a dialogar em silêncios acusatórios, a solidão, sob este ponto de vista, não deflagra simplesmente pelo facto de a sociedade moderna assentar em paradigmas rotineiros enviesados, automatizados, narcísicos e céleres. Toda a solidão de Maria Luísa parece decorrer inteiramente da sua condição física, do facto de ser gorda e de a sociedade manifestar profundas e acirradas dificuldades em lidar com o que lhe parece ser uma contrariedade social, uma violação das regras da decência e da beleza instituídas. Mas há mais, há muito mais, implicando uma leitura sociológica do livro, imbuído na relação da narradora com os pais, retornados de Moçambique. Não deixa de se ler a violência contínua, de povos sobre povos, de indivíduos sobre indivíduos, de espécies sobre espécies, de que o envenenamento de Tejo é doloroso exemplo. A Gorda faz uma perspicaz descrição da demagogia do eu sobre o outro, sendo que o primeiro se encontra totalmente imbuído de um espírito assaz hipócrita de individualismo, afinal submetido à ritualística matriz simbólica universal. O eu privilegia-se contra o tu, se este não se coadunar com o nós. A sociedade é um todo astutamente malicioso na sua coesão, não permite outsiders. E Maria Luísa é-o inteiramente: mulher, gorda, consciente, obstinada, filha de retornados.

Tendo deixado Moçambique para viver em Portugal antes dos pais, parece dar-se aí um corte irreversível na relação com os mesmos, pelo que o seu lamento, ainda que despojado de autocomiseração, é uma espécie de retorno e pacificação de alguém que discorda do pai e dos seus trejeitos nacionalistas, ainda que o ame, e que aguarda com alguma ânsia pela morte da mãe, arrependendo-se da crueza da sua lucidez imediatamente após proferir tal rogo. É que depois ficará finalmente a sós, mas sozinha. A submissão a que vai cedendo, quer à mãe, quer a Tony, quer a David, amor de sempre, e, quiçá, à sociedade nos seus moldes pidescos, é inevitável e dolorosa, nós sempre nos deixamos descair, e quanto mais lúcida, mais irreversível. Maria Luísa tem plena noção disso e a vida, nessa sucessão maquinal de obrigações e processos degenerativos desemboca numa série de reproduções vazias, sem sentido, de que a descrição do ofício de professora é bem demonstrativo, embora passível de decalque em qualquer área, na confusão da burocracia com a polpa do exercício didático. Conclui: “Quando trabalhamos como escravos que dependem de segundos escravos que reclamam sobre terceiros, a vida passa e não damos por ela, entorpecidos pela engrenagem” (Figueiredo 2016: 122). Ao longo da obra acedemos a esta lucidez concisa da cegueira do século XXI, do excessivo valor do trabalho e do despojamento humano do indivíduo. E o que é a vida?

Maria Luísa, ela própria, numa consciente descrição de si mesma, diz-se “tão torta, tão arrogante, egocêntrica e narcísica” (Figueiredo 2016: 213). Embora haja nas suas palavras algum desdém, a leitura que aí condensa assoma toda da relação ambivalente com a figura materna, outro belo joguete que nos oferta neste romance em que ficção e realidade são um destino bem talhado, ornamentado e conseguido: “mera ficção e pura realidade” (imediatamente afirmado na advertência), como, aliás, deve ser na penumbrada casa da literatura. A própria estrutura, de fulgurantes analepses, na crueza das descrições, na ilustrada violência sistemática sobre a mulher, de que o episódio da raspagem uterina sem anestesia por razões de ordem financeira – o livro refere-se claramente aos anos da troika – é exemplo, como seriam outros, fazendo menção ao assédio, à violência sexual entre casais, à condenação social das adolescentes, ao preconceito de género, condensa essa dificuldade em viabilizar a coesão, dada a particularização dos espaços, no escalpelizar das memórias, demonstrando-o fisicamente ao recorrer à compartimentação das mesmas.

A mãe é, pois, o contraponto de Maria Luísa: “A minha mãe era por essência uma senhora parecida […] Não aprendi a contentar-me em ser nada” (Figueiredo 2016: 213), essa machadada na segurança das aparências, no idílio da universalidade, nessa tão apetecida caraterística supostamente portuguesa, a brandura de costumes, a diplomacia, essa adorada civilizaçãozinha.

Conta-se um longo período da história portuguesa, desde a saída de África até à crise e à troika, flutuando entre as pretensões europeístas niveladas por cima e o sufoco da classe média empregada pelo Estado, as ilusões, a realidade, uma sensação de perda associada às descrições de abundância num espaço jamais ecuménico, e de adaptação a um apartamento minúsculo, funcionando aqui como sinédoque do país na ressaca do mito.

O amor da gorda é contado sem pejo ou recriminação. O sexo é quarto aberto, as descrições não são dadas a devaneios impalpáveis e espirituais, é o que é, pejado de cheiro, volume, sinestesias. Maria Luísa persegue David na sua memória, é um amor castrado de que se trata aqui, amputado pelas vozes de outrem a que aquele se deixa impunemente submeter, embora a vidinha da felicidade medíocre o espreite sempre da frincha sarcástica da realidade. Mas Maria Luísa perdoa e perdoa porque o ama, ciente da sua também simiesca submissão. Mas ninguém disse da lucidez do amor. Por essa razão, o final é desonesto, isto é: Maria Luísa, com a tua queda para a ficção, “O que não existe, invento” (Figueiredo 2016: 145), dizes-nos tu a verdade? E que verdade seria esta senão a verosimilhante? Eu até posso desconfiar da narradora, mas não tenho o direito de desacreditar do livro. Se é uma ficção inagurada pela incapacidade de conter a vida? Não interessa, se for viável. E só por este comportamento suspicaz, a autora valida toda uma ars poetica, se lhe quisermos chamar assim, plasmada nas citações seguintes, e noutras que aqui, por economia, não convém acrescentar:

Escrevia sobre conversas que ouvia na mesa de café, tal e qual como as ouvia, ou introduzindo elementos especulativos, morigeradores, manipulando a realidade. Eu não aguentava a vida. Estava metida num jogo que me via obrigada a jogar sem lhe ver o fim. Por isso escrevia. […] Podia viver sem os que amava, mas sem escrita a vida não tinha por onde continuar. […] Sem escrita não havia uma casa onde chegar, tirar o casaco, pendurá-lo, acarinhar a cadela, levá-la à rua, regressar, alimentá-la, sentar-me no sofá e apreciar o gesto. Podia viver sem tomar banho, sem beijos, mas sem escrita não. Ninguém entendia isto, e viravam-me as costas como se referisse uma mania, um vício de gente abastada que se pode dar a luxos. ‘Estás maluca.’ (Figueiredo 2016: 58).

Trata-se, pois, do jugo salvífico da escrita, é doentio, perverso, mas efetivo: “Às vezes pensava ‘agora não aguento’ e escrevia nos meus cadernos qualquer coisa para continuar” (Figueiredo: 2016: 57). Além disso, e sobretudo por isso,

“Tirando a arte, as rosas, o mar, o gato vadio que não tem uma pata, os ouriços-cacheiros clandestinos que aparecem à noite no baldio da frente, os pombos que pousam aos nossos pés pedindo restos de pão velho, que interesse tem a vida? Tirando a fantasia que nos arranca à escuridão parada dos dias sucedendo-se indistintamente, o que vale o tempo que nos foi dado ou que viemos procurar?” (Figueiredo 2016: 277).


Referência: Figueiredo, Isabela (2016): A Gorda. Lisboa: Caminho.


CLÁUDIA CAPELA FERREIRA é trasmontana por nascimento e europeísta por convicção. Doutorou-se em Estudos Literários Portugueses com uma tese sobre a poética torguiana. Escreve sobre literatura e cinema.

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