Subversa

Leminski, leitura extraverbal | Francieli Borges [Nova coluna | “O que o texto faz”]


Parafins gatins alphaluz sexonhei la guerrapaz
Ouraxé palávora driz okê cris expacial
Projeitinho imanso ciumonevida vidavid
Lambetelbo frúturo orgasmaravalha-me Logum
Homenina nel paraís de felicidadania:
Outras palavras.
Caetano Veloso: última estrofe da canção “Outras palavras”,
LP Outras Palavras, Philips, 1982.

Duvido se existo, quem sou eu se este tamanduá existe?
Paulo Leminski, Catatau, 2011.


Fotografia: Daniel Solyszko

Sobre o universo literário que Paulo Leminski produziu, que está além do romance, além do ensaio, além do poema, precisamos falar antes do verbo vaga-lume, que aparece para dar o ar da graça e convencer que sobre a linguagem ainda se sabe pouco. É sempre tudo (ou menos que isso) e também outra coisa, e por isso um exercício de atenção. Uma corrida de mãos dadas com o ato de fabular e se contar e se criar. Um ensaio duro não funciona. Desculpas pedidas e aceitas, vamos aos fatos.

Acontece assim: você está na frente da estante – que pode ser horizontal ou vertical –, avista um livro – que também pode ser xerox, ter a capa roxa ou verde ou laranja-estrondo –, folheia – pode ser com as mãos ou com os olhos –, lê – o signo, o verbo, a imagem – e então imagina e vive aqueles momentos de leitura na urgência – de fazer sentido, de entender o que aquilo tudo quer dizer, de lembrar e organizar as sensações. Catatau: um romance-ideia, por exemplo, é um estouro, nos ganha no susto e se constrói com as pistas da Filosofia, da História, da Literatura, da Semiótica e do repertório do leitor, que por sinal, pode bem ignorar todos esses passos e ser feliz.

Conta o autor que o primeiro estalo da narrativa que se armava surgiu em uma aula de História do Brasil, em estudo sobre as Invasões Holandesas (1630 a 1654). Sabendo desse Brasilien que nunca saiu da possibilidade, ele cogita como seria caso Descartes tivesse vindo para o país com Nassau. Catatau, daí. “Fracasso da lógica cartesiana branca no calor, o fracasso do leitor em entende-lo, emblema do fracasso do projeto batavo, branco, no trópico” (LEMINSKI, 2011, p. 212). Essa é uma boa síntese. Mas também, no texto, a gente acompanha do pega-pega do sentido que começa já no título. Isso porque a palavra catatau, como onomatopeia, é uma coisa – que se esborracha; como regionalismo, em Portugal, são pelo menos mais três sentidos, de surra, de carta de baralho, até de pênis, de acordo com Leminski; no Brasil, é uma expressão, um vocábulo que nomeia o grande (discutiram e armaram um catatau!) e o pequeno (um catatau aquele franzino!). Polissemia total, portanto, já na descrição.

E o idioma, nesse texto, também é deslizante. Português e pinceladas de latim, o sistema mais inesperado para dar verossimilhança à historieta. É isso, a gente pensa, pensa, pensa. E aprende a ter calma, “a pressa é a mãe do precipício”, e disso sai um hábito, uma brincadeira que está aqui, mas também nos haicais pelos quais o escritor ficou mais conhecido, que também desliza nas canções criadas por ele, nas escolhas das suas traduções. Múltiplos. Uma independência que nos torna maduros e testados. Leminski é uma delícia, um teste à inteligência. E vem com um mapa: virem-se.


FRANCIELI BORGES | doutoranda em Estudos Literários na Universidade Federal de Santa Maria, com tese sobre Tomás Santa Rosa e Graciliano Ramos. | E-mail: francielidborges@gmail.com

 

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