Subversa

Lesley Nneka Arimah, literatura e força | Francieli Borges [O que o texto faz]


     “Cair é uma ciência. Não se pode tropeçar no próprio pé, cair com a cara no chão, e esperar uma recompensa”.

Lesley Nneka Arimah, “Acidental”, 2018

 

Fotografia: acervo da revista


A preocupação aqui é com o que a literatura faz, depois, com o que ela diz. Por último, com o que dizem sobre ela. Todas as vezes que tenho um lançamento nas mãos ou um texto traduzido há pouco, ainda que clássico, fico pensando na literatura como uma espécie de entidade: um calhamaço de papel que funciona na cabeça como uma bola de cristal. Se o jogo funciona, o filme roda e o livro envelhece nas minhas mãos, e aí também elas ficam velhas e com rugas. Estou eu, daqui meio século, falando sobre esse livro, talvez em uma sala de aula, talvez em um café, conversando com um amigo querido. Funciona assim.

O que acontece quando um homem cai do céu, da escritora Lesley Nneka Arimah, é um compilado de contos, publicado pela editora Kapulana, no Brasil, há poucas semanas, com o trabalho impecável da tradutora Carolina Kuhn Facchin. Alguns dos textos que encontramos no livro, antes das edições de língua inglesa, em 2017, foram publicados em outros espaços – essa história que a gente já conhece. Digo isso porque sempre é um acontecimento ter uma obra que pode tranquilamente figurar em uma futura história da literatura. O frescor, o respiro, é esse.

A começar pelos títulos. Intitular – e bem – é uma tarefa inglória. Aqui, o nome permite compreender uma elaboração cuidadosa: ele propositalmente arrebenta a expectativa de quem lê, além de propor todo um outro universo pelo não dito. E esses títulos, mesmo quando não irrompem em um fim, deixam os narradores suspensos, jogam para o leitor a culpa, o drama, o olhar privilegiado, a sensação que leu um mundo e que precisa lidar com ele.

Já as personagens mulheres, que funcionam no livro como uma espécie de fio condutor, são uma resposta. Elas sugerem as complexidades de existir em um lugar, tão semelhante a todos os lugares. No livro, as histórias de guerra, por exemplo, se entregam com dificuldade – lemos sobre as batalhas oficiais, e ainda, aquelas travadas nos espaços privados, tantas vezes devendo pouca diferença em relação à violência utilizada. Ali estão as questões que o nosso momento não conseguiu e nem se preocupou em resolver, e que já não pode ignorar. Suspeito que seja por isso que as narrativas se movam tão bem, quero dizer, porque a tradição, para quem quer contar essas histórias, é um caminho que pode bifurcar em sentidos inesperados. Isto é, a literatura do século XXI olha para o passado com cuidado, mas sem subserviência, e também atenta aos maniqueísmos. Arrisco dizer que chega a ser um modo completamente original de conduzir o realismo psicológico.

Recebo com surpresa as críticas aos textos curtos produzidos nas últimas décadas como “dinâmicos”, “concisos”, eu, que tantas vezes levanto a cabeça das páginas e olho perdida algum ponto fixo tentando entender todos os insights de um único parágrafo. É que estamos tão embrenhados no hábito de nos demorar em excertos que não se resolvem; tão habituados às reverências às barbas brancas; tão mal acostumados com a crítica fácil de tudo aquilo que não for desde o início pensado como um romance, que quando o texto diz exatamente aquilo que queria, é como se soasse muito simples.

Que bom que obras como O que acontece quando um homem cai do céu têm aparecido. Nós sempre precisamos de ajuda por aqui.


FRACIELI BORGES | doutoranda em Estudos Literários na Universidade Federal de Santa Maria, com tese sobre Tomás Santa Rosa e Graciliano Ramos. E-mail: francielidborges@gmail.com

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