Subversa

Metamodernismo | Nem sempre foi assim que a banda tocou

Fotografia: acervo da revista


Felipe G. A. Moreira

A poesia de reconhecimento nem sempre foi dominante. Considere As Flores do Mal, de Charles Baudelaire, publicado em 1857. Mais exatamente: seu último poema, o “A Viagem”. Esse poema tem três características simetricamente opostas às da poesia de reconhecimento. Essas são as características do que eu vou chamar de poesia modernista.

Primeiro, “A Viagem” não foca o tipo ordinário. Esse tipo que aceita viver cheio do que Baudelaire chama de “spleen” (tipo uma melancolia rancorosa) e “tédio”. O tipo que tem bafo disso mesmo. Que tem cheiro disso. O tipo ordinário que não viaja e vive se remoendo de si e de todos no “mundo pequeno” das suas próprias “lembranças”. “A Viagem” retrata o desviante.

O desviante é aquele que é ou é feito um “louco”. Aquele que é ou é feito um “vagabundo”. O desviante é ou é feito um “judeu errante”. Ele viaja. Não pode nem parar de viajar.

Viajar: não necessariamente num sentido literal de pegar um barco e partir por aí pelo mar com um destino determinado. Viajar: sobretudo, num sentido (por assim dizer) espiritual.

O sentido espiritual é o de (tentar) abandonar por abandonar o “mundo pequeno” do spleen-tédio e o de (tentar) partir por partir para um “mundo grande”.

O “mundo grande” é aquele que é comparável ao da “criança amante de mapas e selos” que inventa um “universo” imaginário a partir desses mapas e selos; é aquele mundo para além de si mesmo onde se confronta o desconhecido. Nisso o mundo grande seria (por assim dizer) mais intenso ou mesmo muito mais mundo ou mesmo muito mais real do que o “mundo pequeno”.

Segundo, “A Viagem” não se vale de uma linguagem quase ordinária. Tipo essa do tipo ordinário do mundo pequeno.  Ainda que escrito em alexandrinos, acho que dá para ler esse poema como que usando ou ao menos tentando usar uma linguagem alternativa, marginal, desviante.

Quero dizer: uma linguagem que está ou ao menos pretende estar mais próxima da linguagem do louco-vagabundo-judeu errante (que te incomoda fedendo na fila do cinema cult te pedindo dinheiro) do que do tipo ordinário descrito no “Póetica Prática” do Paulo Henriques Britto.

Falar feito um louco. Falar feito um vagabundo. Falar feito um judeu errante. Falar feito qualquer outro do homem branco (esse homem que não é só branco, mas europeu, heterossexual, de classe média ou alta, que domina as regras por assim dizer “ordinárias” de uma língua europeia, é adulto, racional, trabalha, tem família, etc.). Acho que é isso que Baudelaire quer fazer durante todas As Flores do Mal. Ele quer que o livro de poemas funcione feito um louco-vagabundo-judeu errante ou qualquer outro outro do homem branco que bate na tua porta de madrugada.

Nisso, Baudelaire almeja fazer uma poesia de alteridade. Em outras palavras, a pretensão dessa poesia é quebrar o espelho onde você está vendo a si mesmo e enfiar uma outra coisa ali que não é você e que também não é a mamãe, o papai ou qualquer outra pessoa na qual você se reconhece.

Terceiro, “A Viagem” não meramente descreve um velho estado de coisas atual. Esse poema se contrapõe ao mundo pequeno desse estado. Ele se contrapõe ao elogiar e apontar para o novo.

O Novo! Para falar de modo mais dramático-afetado-modernista. Porque assim também fala o eu-lírico no último verso do poema na tradução do Fernando Ribeiro: “no abismo mergulhar, Inferno ou Céu, que importa? / Para trazer o novo do fundo do Estranho!”.

No fundo do Estranho ou do Desconhecido.

Porque a pretensão de Baudelaire, acho, não é meramente retratar o spleen-tédio do mundo pequeno. Eu acho mesmo que ele quer criar um choque de modo que um vidro de espelho estraçalhe na cara dos leitores que estão presos nesse mundo pequeno aí.

Choque: no sentido de um sentimento de estar ofendido com alguém ou alguma coisa que desrespeitou algo que você valoriza, algo com o quê você se importa muito.

Note que Baudelaire está tentando chocar, sobretudo, o cristão. O cristão é o sujeito que valoriza, que se importa com As Normas Cristãs. As Normas que se você seguir, você vai para o céu; se você não seguir, você vai para o Inferno. As Normas que seriam descritas nas escrituras.

Nisso o eu-lírico de “A Viagem” elogia e aponta para o novo. O novo é o mundo grande onde As Normas pouco importam. O que importa é assassinar o spleen e o tédio. E que se, para tanto, é preciso violar As Normas… É meio que foda-se se isso acontecer. Risos satânicos.

Nisso Baudelaire também parece querer fazer uma poesia da deformação. Note: como eu disse na última coluna, eu interpreto que o Paulo Henriques Britto usa “formas do nada” para se referir aos tipos ordinários que usam a linguagem quase ordinária e que fazem parte de um velho estado de coisas atual. Mas não é assim que Sócrates falaria sobre o nada e sobre as formas.

Acho que para Sócrates, o nada é o que não tem forma; é o deformado, o caos, o mal, o não ser. E tudo que existe, existe porque participa em uma forma. E tudo que existe (incluindo todas as formas) existe porque participa na forma bem.

Daí, estou falando meio que socraticamente. Assim: dizendo que Baudelaire parece fazer uma poesia da deformação no sentido de uma poesia que retrata justamente àquilo que não parece participar na forma de bem. Tipo: o mal ou as flores do mal que são indiferentes às Normas Cristãs.

Mas alto lá, anão! Não estou sugerindo que a banda tem que parar de tocar poesia de reconhecimento (à lá Britto) e voltar a tocar poesia modernista (à lá Baudelaire). Os que tocam assim —talvez eles sejam Os Mais Ingênuos dos Poetas do Presente —fazem o que eu chamo de poesia modernista fracassada. Vou falar sobre esse tipo de poesia na próxima coluna.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). No momento, trabalha no que espera tornar seu novo livro de poemas, Sequestro público da senhorita saúde (ainda sem editora). Ele também trabalha como professor de filosofia da Universidade de Miami e na sua dissertação de doutorado sobre metafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras.

Leia os artigos anteriores do Felipe AQUI.

felipegustavomoreira@yahoo.com.br | Site pessoal.

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