Subversa

Metamodernismo | O que é poesia de reconhecimento?


“Man in the mirror” (Suzanne Marie-Leclair)


Felipe G. A. Moreira

O que é poesia de reconhecimento?

Inauguro minha coluna mensal na Subversa tentando responder essa pergunta. Deixe-me então analisar um poema contemporâneo. “Poética Prática” é o nome do poema que eu tenho em mente. Esse poema foi escrito e faz parte de uma coletânea de poemas do Paulo Henriques Britto. O nome da coletânea é Formas do nada; ela foi publicada em 2012 pela Companhia das Letras. “Poética Prática” é poesia de reconhecimento. Ou ao menos assim acho eu. Acho eu assim porque uma poesia de reconhecimento é uma que tem três características que estão presentes nesse poema.

A primeira característica de uma poesia de reconhecimento é que o seu eu-lírico ou principal personagem retratado é um tipo ordinário. Eu não vou nem tentar dar uma definição de “tipo ordinário”. Prefiro usar essa noção de modo intuitivo. Prefiro ilustrá-la considerando o eu-lírico de “Poética Prática”. Esse eu-lírico é um tipo ordinário no que ele ou ela —  e note que o poema não indica o gênero do eu-lírico — lida com a realidade como um aluno preguiçoso lida com os estudos.

Quero dizer: esse eu-lírico prefere ler os “resumos” (tipo de Rimbaud, Lacan ou Mallarmé) da realidade ao invés de se confrontar com seu “calhamaço insuportável” (tipo as obras desses autores).

Mais: esse eu-lírico prefere lidar com a vida como um espectador entediado que prefere ver “só os anúncios” ao invés do “filme inassistível”.

Mais ainda: ele ou ela tem as crenças que “o corpo não é preciso”, “o espírito é impreciso”, “eu não é um nem outro” e não há “nada como um bom significante vazio /para abolir o azar”. Essas crenças indicam que o eu-lírico tem alguma formação, provavelmente universitária. Isso porque ela ou ele tem noção da distinção entre corpo e espírito e faz referências a Rimbaud, Lacan e Mallarmé.

Essas crenças, no entanto, apenas sugerem que o eu-lírico leu alguns resumos. Digo isso porque essas crenças não apontam para nenhum conhecimento profundo sobre a distinção que eu acabei de mencionar ou sobre esses autores.

Mais diretamente: quem fala em “Poética Prática” fala feito uma pessoa com formação universitária e de classe média ou alta meio entediado (a) e irônico (a) e meio empolado (a) fazendo referências “eruditas” (feito numa fila para ver um filme no Estação Net Botafogo no Rio de Janeiro).

A segunda característica de uma poesia de reconhecimento é que ela usa uma linguagem quase ordinária. Também não vou nem tentar definir linguagem ordinária. Também prefiro usar essa noção de modo intuitivo e ilustrá-la com a linguagem do “Poética Prática”. Quero dizer: pense nas palavras e nas construções gramaticais que são usadas nesse poema. Me parece bem explícito que elas são quase ordinárias no que quase que dá para ouvir aquela pessoa lá na fila do cinema falando. Mas preste atenção: eu estou falando em termos de uma linguagem quase ordinária.

O “quase” importa. Importa porque o “Poética Prática” se vale de rimas e métricas poéticas tradicionais feito o dodecassílabo e a sextilha. Esse poema também usa expressões pouco corriqueiras. Por exemplo: “intrusões malignas”. Não é assim que a maior parte das pessoas fala no cotidiano. Na verdade, esse recurso formal de combinar palavras menos corriqueiras (“demiurgo”) e outras mais corriqueiras (“escroto”) em versos de métrica tradicional é usado em praticamente todos os poemas de Formas do nada. Esse recurso é uma razão para que a linguagem do livro seja quase ordinária e uma marca (talvez mesmo A Marca) do “trovar claro” do Britto.

A terceira característica de uma poesia de reconhecimento é que ela meramente descreve um velho estado de coisas atual. No caso do “Poética Prática”, o velho estado de coisas atual descrito é esse de alguém que vive feito uma pessoa de classe média ou alta cansada que lida com a realidade e com a vida do modo que eu falei acima; alguém que tem as crenças e/ou faz referências “eruditas” feito as que eu acabei de mencionar. Alguém que tem a poética prática ilustrada pelo poema tratado aqui ou cuja vida é a de uma forma do nada, como o título da coletânea do Britto indica.

Minha leitura então é que nessa coletânea a expressão “formas do nada” se refere aos tipos ordinários que usam a linguagem quase ordinária e que fazem parte de um velho estado de coisas atual. Esses são os tipos nos quais os mais prováveis leitores de livros de poesia no Brasil e no resto do mundo (outras pessoas com formação universitária de classes média ou alta e com características parecidas com as do eu-lírico do “Poética Prática”) podem se reconhecer.

Eu mesmo me incluo nesse grupo de mais prováveis leitores de livros de poesia. Na verdade, eu mesmo me reconheço um pouco no tipo ordinário descrito no poema. No que também já estive meio entediado, irônico e empolado fazendo referências “eruditas” em filas de cinemas Cults da zona sul do Rio, de Paris, de Boston, de Miami, etc. Daí, coloco uma pergunta ao leitor: não se reconhece também você (ao menos um pouco) no tipo ordinário descrito no “Poética Prática”?

Assim: você quase vê a si mesmo vendo esse tipo ordinário você se vê vendo esse tipo num espelho.

Talvez hoje no Brasil ou mesmo no mundo, os poetas que tratam dessas formas do nada aí sejam majoritários. Talvez a poesia de reconhecimento seja a poesia majoritária no Brasil ou mesmo no mundo. Mas nem sempre foi assim que a banda tocou. E talvez seja hora de mostrar que a banda deve parar de tocar assim e começar a tocar de um outro jeito. Ou ao menos é para esse viés que eu sempre apontei como poeta e tentarei dar razões para continuar a apontar nas próximas colunas.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). No momento, trabalha no que espera tornar seu novo livro de poemas, “F.G.A.M”. Ele também trabalha como professor de filosofia da Universidade de Miami e na sua dissertação de doutorado sobre metafísica,Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras.

Leia os artigos anteriores do Felipe AQUI.

felipegustavomoreira@yahoo.com.br | Site pessoal.

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. José Huguenin 26 de março de 2018 em 22:10

    Olá Felipe,

    Muito interessante o artigo….embora eu tenha sentido falta de ter o “Poética Prática” em mãos para pensar que compreendi bem a questão…

    Poema de reconhecimento não seria, então, espelho? Narciso interpreta melhor o reflexo de sua face!

    Muito bom teus textos!

    Saudações!

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