Subversa

Michel Temer | Felipe G. A. Moreira [Metamodernismo]


Fotografia: Beto Barata, 2018.

Críticos de poesia devem comentar exclusivamente sobre textos, sobretudo, sobre textos de poesia (seja lá quais forem as condições para algo poder ser qualificado como poesia). Esse é um imperativo que até agora eu pressupus nas minhas colunas na Subversa. Ele implica que críticos de poesia não devem tratar das práticas (não-poéticas) dos poetas. Sobretudo: não é papel deles entrar no debate ético sobre se o poeta (quero dizer, o próprio autor) é `boa gente` ou `má gente`. Não é papel do crítico dissertar sobre se o poeta faz caridade, tem empatia com animais, abandonou os filhos, é bom marido, cheira cocaína, etc. Quem sou para falar sobre isso (sobretudo, sem evidência empírica)?! Essa tem sido a minha atitude.

Mas pense no atual presidente do Brasil, o Michel Temer. Ele publicou uma coletânea de poemas publicada em 2012 pela TopBooks. A coletânea se chama Anônima Intimidade. Obviamente, Michel Temer é uma pessoa pública; ele é reconhecido primariamente como político. Por conta disso, a tentação de traçar paralelos entre suas práticas políticas e os seus poemas é quase irresistível. Quero dizer que acho mesmo muito difícil, acho mesmo quase impossível, que algum leitor ciente do Michel Temer político consiga ler o Anônima Intimidade sem procurar traçar esses paralelos.

O crítico que, então, não traça esses paralelos parece não fazer justiça à experiência da maioria dos leitores desse livro. Vou pressupor, espero que não muito problematicamente, que o crítico deve procurar fazer essa justiça. Logo, vou me autorizar a fazer a seguinte revisão do imperativo que eu mencionei acima: críticos de poesia devem comentar exclusivamente sobre textos, sobretudo, sobre textos de poesia, exceto quando o poeta é uma pessoa pública, reconhecida pelas suas práticas em outro âmbito. Nesse caso, paralelos entre essas práticas e poemas do poeta em questão são aceitáveis.

Queria então traçar alguns paralelos entre as práticas políticas do Michel Temer e dois de seus poemas. Nisso, vou apontar para uma leitura segundo a qual a poesia do Michel Temer meio que resiste a ser chamada de poesia de reconhecimento ou de modernista fracassada. Isso porque ela simplesmente trata de assuntos bens estranhos a esses dois tipos de poesia dominantes hoje.

O primeiro poema do Temer que eu vou analisar é o “Pensamento”: “Um homem sem causa / Nada causa”. O segundo poema é o “Radicalismo”: “Não. Nunca mais!”

Na minha leitura, o poema “Pensamento” é uma definição ostensiva do conceito de pensamento. Uma definição ostensiva é uma espécie de definição meia bomba: uma que, ao invés de dar condições suficientes e necessárias para a aplicação do conceito, meramente indica ao menos uma instância do conceito. Por exemplo, uma definição ostensiva de “terrorista” é dizer que Osama bin Laden e/ou George W. Bush são terroristas. A definição ostensiva do poema “Pensamento” é que um homem sem causa que nada causa é uma instância de pensamento, isto é, esse homem pensa.

Mas…

O que é um “homem sem causa”? Acho que o sentido mais recorrente dessa expressão (e nada no poema indica que não é esse o sentido usado pelo eu-lírico) é que ele é aquele que não se compromete explicitamente nem com as demandas da (por assim dizer) `direita`, nem com as demandas da (por assim dizer) `esquerda`.

Um exemplo de demanda de direita é: devemos conservar a família tradicional constituída por um casal heterossexual e ao menos uma criança. Leia-se: deve ser proibido que casais homossexuais adotem crianças. Um exemplo de demanda de esquerda é: devemos dar a casais homossexuais os mesmos direitos de casais heterossexuais. Isso implica que a própria noção mais ordinária de “família” precisa ser revisada. A razão é que casais homossexuais que criam ao menos uma criança também devem contar como família.

Mas…

Em que sentido um homem sem causa nada causa? Minha interpretação é que o eu-lírico de “Pensamento” sugere que esse homem nada causa porque ele é o homem democrático por excelência: aquele que meramente procura atualizar o que a maioria num certo contexto histórico demanda e não tem exatamente nenhuma demanda própria, nem de direita, nem de esquerda. Pensar, o poema “Pensamento” sugere, é fazer justamente isso. Tipo ser navegado pelo mar independente da direção das ondas.

Assim.

Se a maioria tem mais demandas de direita do que de esquerda, esse homem sem causa que nada causa, procura atualizar essas demandas. Se essa maioria tem demandas mais de esquerda do que de direita, esse homem democrático por excelência, também procura atualizar essas demandas.

Durante um governo mais de direita, o homem sem causa que nada causa é de direita. Durante um governo mais de esquerda, o homem sem causa que nada causa é de esquerda. Na Alemanha nazista, ele seria nazista. Na Rússia comunista, ele seria comunista. Ele está sempre com a maioria que tem o poder. Quero dizer que ele é uma espécie de Pônico de Pilatos que meramente atualiza o que a maioria quer.

Acho que as práticas políticas do próprio Michel Temer (como as do José Sarney) parecem ser essas desse homem democrático por excelência. Por exemplo, ele já esteve do lado da Dilma, alguém mais ou menos da esquerda. Isso quando o povo a elegeu em 2010 e a reelegeu em 2014. Isso quando ela tinha certo apoio da câmara e do senado. Depois, como é sabido, o Temer rompeu com a Dilma por volta de 2015-2016. Nessa época, ela já tinha perdido o apoio da câmara e do senado. Mais: o povo pouco fez para que ela se mantivesse no poder, assumindo que dizer “Fora Temer” no Facebook ou usar expressões do tipo, “Golpistas FDP”, não é fazer muito. Agora o governo do Temer é mais ou menos de direita.

Pensar para o Michel Temer, como suas próprias práticas políticas parecem indicar, é agir exatamente assim. Pensar nesse sentido do Temer é, repito, ser navegado pelo mar independente da direção das ondas. Porque só assim é possível ter poder, capital político.

Feito talvez um Roberto Carlos da política e da poesia. Roberto Carlos talvez seja a maior influência (talvez inconsciente) tanto do político, quanto do poeta Michel Temer. Risos. Não risos. Mando essa porque Roberto Carlos talvez tenha sido ambiguamente simpático aos militares na década de 60. Ele também talvez tenha sido simpático à redemocratização na década de 80.

Mas, com certeza, durante toda sua carreira toda, sempre tentou fazer essas músicas, escrever essas letras de uma espécie de poesia de reconhecimento total: uma que sempre busca atualizar o que a maioria demanda, sente, pensa, é. Não é por acaso que tem muito anos já que o Roberto Carlos tem aquele especial de fim de ano na Globo.

Acho, então, que o título “Anônima Intimidade” faz sentido. Por um lado, Temer está sendo “anônimo” no que quem fala no “Pensamento” não é ele, mas um eu-lírico. Por outro lado, ele está sendo “íntimo” porque esse poema (ao menos na minha leitura) é uma confissão do próprio Michel Temer sobre o modo como ele entende a política, sobre o que ele entende por pensamento.

E essa concepção de pensamento do eu-lírico de “Pensamento”, talvez a do próprio Michel Temer, sugere que a pessoa que não meramente procura atualizar o que a maioria num certo contexto histórico demanda, a pessoa que tem alguma demanda própria de direita ou de esquerda, bem, essa pessoa não exatamente pensa. Ela é radical. Acho que é sobre essa pessoa que o “Radicalismo” trata.

O eu-lírico desse poema parece sugerir que um dia ele ou ela (não fica claro qual é gênero desse eu-lírico) não pensava. Ele ou ela era radical no sentido que ele ou ela buscava fazer mais do que atualizar o que a maioria demanda. Mas agora, esse eu-lírico diz, ele ou ela não é mais assim. Na verdade, como o ponto de exclamação no fim do poema indica, esse radicalismo foi abdicado com veemência. Ele foi abdicado em prol do pensamento, em prol do modo de ser do homem democrático por excelência. Talvez também o próprio Michel Temer um dia tenha sido um radical, mais de direita ou mais de esquerda. Talvez ele também esteja explicitando uma anônima intimidade no “Radicalismo”. Anônima porque também quem fala nesse poema é um eu-lírico. Intimidade porque talvez o próprio Michel Temer também esteja se confessando nesse poema.

Mas…

Obviamente, tem uma diferença imensa entre o Michel Temer (tanto o político, quanto o poeta) e o Roberto Carlos. O Roberto Carlos conseguiu ser amado pelo público, ao fazer essa poesia do reconhecimento total dele e ao ser o homem democrático por excelência da música popular brasileira. Eu mesmo tenho que admitir que eu acho o Roberto Carlos muito mais interessante do que todos os poetas do reconhecimento juntos. Sei lá, ele leva o reconhecimento ao absurdo… Obviamente, o fato de Roberto Carlos estar fazendo música não é nenhum detalhe. Na verdade, vou confessar que eu (como a maioria do povo do Brasil?) meio que amo, e quase sempre choro quando ouço sozinho algumas músicas dele, tipo, “Lady Laura” e “O Portão”.

Não é nada assim que a banda toca com o Michel Temer. Como poeta e muito mais ainda como político, ele tem sido consideravelmente odiado, tanto pela direita, quanto pela esquerda. Por conta desse fracasso dele, por conta desse ódio do povo por ele, Michel Temer (como José Sarney) é um tipo da poesia metamodernista. Ele é um objeto que o metamodernismo toma como sendo poético. Isso porque ele é um desses tipos moralmente ambíguos (talvez como todo e qualquer pessoa). Mais: ele é um outro do cordeiro em si pelo seu próprio fracassado de não conseguir ser um Roberto Carlo da vida, seu próprio fracasso (que talvez seja o de todos nós) de não conseguir ser o cordeiro em si amado por todos e que consegue sempre “pensar” no sentido do próprio poema “Pensamento”. É isso que o meu Michel Temer indica, ao fazer um retrato quase abstrato de um Michel Temer ressentido com o público. Um retrato abstrato de Michel Temer abdicando de ser o homem democrático por excelência e se tornando mais radical no sentido do próprio poema “Radicalismo” do Temer.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). No momento, trabalha no que espera tornar seu novo livro de poemas, “F.G.A.M”. Ele também trabalha como professor de filosofia da Universidade de Miami e na sua dissertação de doutorado sobre metafísica,Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras.

Leia os artigos anteriores do Felipe AQUI.

felipegustavomoreira@yahoo.com.br | Site pessoal.

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