Subversa

Na soleira duma nova vida | Um Lírio sobre os Olhos

Pedro Belo Clara


Doira-se a linha da distância.
Não tardará o naufrágio da luz.

Com a ameaça dos grilos iminente,
de súbito clareia-se o traço
de cada contorno e forma.

A sede da noite fecunda
a silenciosa fome do dia.

Então, o que sempre foi
aos olhos se revela claro:
são meros mantos os corpos,
no longo inverno da ignorância
refúgio contra as álgidas correntes,
pano nascido do paciente gesto
dum primórdio olvidado,
lugar onde o coração encontrou
a palavra da sua trova.

No mais profundo de nós,
agora o recordamos,
tão limpo como água sem vaga,
somos flor sem pétala,
fruto sem propósito,
ave sem voo.

E todas as canções nascem de nós.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Quando as Manhãs Eram Flor” (2016). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Fábio Amaro 21 de Fevereiro de 2018 em 21:52

    Bravo!

    • Pedro BC 1 de Março de 2018 em 09:10

      Muito obrigado, amigo Fábio. Abraço.

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