Subversa

No reverso da folha que cai | Um Lírio sobre os Olhos

Sei que as águas sonham
longas mortalhas nevadas,
sei que as brisas agudas
vão ao de leve avivando
o incêndio frio das romãs.

Sei da reptícia hipocrisia
dum coração alado louvando
o encarquilhar da asa,
mas a morte vive.

É preciso amar esta luz
em nome duma dignidade feliz,
é preciso beijar cada fibra sua,
navegá-la sem desejo de boca
ou mão de chama própria;

é preciso nela entrar
com a hesitação das virgens,
com a timidez dum broto
que não sabe ainda ser flor
e no circular fogo dos amantes
no seu reverso abraçar
o pequeno caroço das cerejas.

Quando os olhos se abrirem
já as rosas terão cantado.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Quando as Manhãs Eram Flor” (2016). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

Sobre o Autor

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