Subversa

O Bairro Amélia ou a irresistibilidade da estória | Das Áspides de Cleópatra


Cláudia Capela Ferreira

Fotografia: acervo da revista


“Um romance só muito raramente é pura construção imaginativa. […] Um romance evita-se que seja puramente inventado, porque os factos reais de base são uma defesa para a sua construção e coerência. A “ficção” começa com o tratamento desses dados”.

Vergílio Ferreira

O regresso à casa de infância tem tanto de aprazível, como de dilacerante. No mais das vezes, trata-se de um recontactar com a natureza eximiamente selvagem da nossa inocência, o que pode pôr a teia maninha do nosso quotidiano em rota de colisão com os sonhos, com um sentido de honestidade imberbe, mas eficaz. Isso macera. Em As Primeiras Coisas, de Bruno Vieira Amaral, editado em 2013 pela Quetzal, o retorno do narrador à casa-mãe simboliza uma derrota, uma inextinguível maceração e melancólica tentativa de absolvição da sua identidade, findo o casamento e o emprego. Mas o mais interessante dessa sua intromissão em si é a extraordinária forma como a viagem ocorre: dentro da personagem e nos interstícios do real.

A primeira obra de BVA situa-nos, com a sua mão seguríssima, no Bairro Amélia, retrato medianamente fiel — porque se trata de ficção e convém não esquecer, como o escritor e o próprio narrador, que a verdade pouco interessa, depois de submetido o real à imaginação — , de tantos outros bairros formados na ressaca da guerra colonial e do retorno. De facto, o retorno é toda uma temática no livro, seja pela tónica do desconforto do mesmo, seja pelo antagonismo que a permanência sugere. Do universal, passamos, portanto, à soma de todas as partes ou portas. O Bairro Amélia acontece por diversas razões, como fim da linha, como início abnegado da mesma: é, tudo, dependente da perspetiva.

Um dos aspetos mais relevantes e realmente interessantes d’ As Primeiras Coisas é o gracejo no tratamento do binómio real-ficção. O autor parte inteiramente de um cenário efetivo mas não se limita a pintá-lo: representa-o, submetendo-o à imaginação, aportando vícios e malignos aleijões às personagens, ou, simplesmente, homenageando casos de insucesso absolutamente dignos de narração, precisamente pela subjetividade da noção de insucesso, e, sobretudo, pela clara consciência do torpe exercício de distanciamento social perante as pessoas imersas em comunidades sempre, irremediavelmente, silenciadas e extintas, automaticamente anuladas. Ora, a consideração do carácter válido da história ainda que esta não atinja as proporções míticas, ditas universais, subverte a ideia canónica do que merece ser contado; pelo que, assim, ainda que BVA não o pretenda —  ou não sofra dessa ingenuidade — , o seu livro pugna e argumenta claramente pela inclusão do outro na esfera do contável, do dizível, do narrável, do literável, se o leitor permitir esta neologia atoleimada. Trata-se de gente, gente mesmo, gente que sofre a escarlate ação da violência doméstica, do racismo, da solidão, da doença, da desilusão, da morte. Gente mesmo.

O narrador é orientado pela curiosidade do regresso, na tentativa de compreender o tempo decorrido entre o momento alvo em que deixa o Bairro Amélia para a ele regressar, vencido, certo da sua falha: “Quando, em finais dos anos noventa, voltei costas ao Bairro Amélia […] senti uma onda de orgulho […] cresci com a ideia de que só os derrotados […] não saíam de lá […] e regressei, cabisbaixo, com o fardo do meu fracasso” (Amaral 2013).  Não deixa de ser fundamental salientar:  “A sorte dos que lá ficavam era-me indiferente” e, ainda assim, deve-se, talvez, à fulgurância da história dos outros, a resiliência do narrador. É que nós não vivemos sozinhos, embora estejamos sós. Não se trata de redenção, ainda que seja o Bairro Amélia a salvá-lo de qualquer coisa a que se deixa submeter. Pode ser tristeza, melancolia, frustração.

Pela mão de Virgílio (numa metáfora feliz), o fotógrafo que regista momentos estanques e os reserva como negativos para futura consulta, guia desse inferno assomado no bairro, o narrador deixa-se seduzir pela graça da imaginação, espicaçada pela memória, resumindo, em breves palavras, como convém, a intemporal lição literária: “Virgílio, a verdade não importa, o que importa é o que vejo quando fecho os olhos” (Amaral 2013). Não há, pois, um momento irreal n’ As Primeiras Coisas, como não se destrinça o embuste; as personagens estão catalogadas, trabalhadas no que poderíamos designar como contos ou microcontos, submetidas todas à mesma desilusão, e a história do narrador age como fundo e meio de interação entre as demais; será, então, a base do puzzle em que várias peças soçobram irrequietas ou falham, e em que outras, esquinudas, por violência da busca de sentido, se forçam contra os espaços, negando-nos a perceção completa da história. Assim, não deixa de se reclamar um sentido metaliterário no livro, cuja narração galga da primeira para a terceira pessoa, descreve ações em primeira mão, bem como rumores típicos de bairro, sendo aposto, inclusivamente, na inclusão das impertinentes notas de rodapé, aferindo, com alguma relaxada pompa e sarcástica troça, da infindável possibilidade narrativa, do eterno e incontrolável caminho da ficção. As notas de rodapé evidenciam o carácer fantasista da vida, do convite infindável a mais qualquer coisinha, do extra que não cabe na narrativa mas é um aparte digno de registo.

Bruno Vieira Amaral persegue, sem dúvida, a história do asssassínio de Joãozinho Treme-Treme, ou João Jorge, figura resgatada no livro recentemente editado, Hoje estarás comigo no Paraíso (2017), tida como peça desencaixada, ausência instigadora. Não seria de todo impensável se tivesse sido ele, enviesadamente, a causa efetiva da criação do Bairro Amélia: os mortos são pacientes e os autores bons ouvintes; por outro lado, há uma tendência do foro religioso, ou pelo menos ritualística, na forma como o autor constrói as personagens, especialmente Joãozinho Treme-Treme, o que acaba por ser comprovado no título da obra recente. Também não estranharia se daí se enveredasse por outra história, uma espécie de Paraíso, mesmo que irónico, fechando o ciclo Amélia, porque, na verdade, Bruno Vieira Amaral é um grande contador de histórias.


Referências:

Amaral, Bruno Vieira (2013): As Primeiras Coisas. Lisboa: Quetzal. (edição digital)

Ferreira, Vergílio (1994): Conta Corrente IV. Lisboa: Bertrand.


CLÁUDIA CAPELA FERREIRA é trasmontana por nascimento e europeísta por convicção. Doutorou-se em Estudos Literários Portugueses com uma tese sobre a poética torguiana. Escreve sobre literatura e cinema.

 

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