Subversa

O eco das coisas vazias | Pedro Belo Clara [Um Lírio sobre os olhos]


Fotografia do acervo da Subversa.

Nesta hora, nesta cor em que no peito não cabe nome: uma leve inquietação de folha entregue aos caprichos do vento, uma agitação silente como a que antecede o esboço dum voo, um doce e breve tremor como na deliciosa surpresa duma carícia que não pede asas para ser pássaro – ou talvez um imperceptível gesto de rebento adormecido querendo já ser flor.

Um conforto. Um conforto que de tão íntimo estranha, repele, cativa, antevê a ferida de lâminas que a noite oculta – só até os braços se abrirem à razão final, ao esplendor único, e aceitando a morte renderem-se aos mistérios que não sabem compreender.

Pois viver basta – como esquecemos que sempre bastou? Além, muito além de todos os motivos, de todas as cores ou canções nascidas do desejo de ser o que nunca fomos. Um jogo de tolos, sim; uma floresta de espinhos plantada pela insensatez das próprias mãos. Mas os corpos ardiam na cegueira de todos os sentidos com o fulgor dos astros vadios.

Observa a madrugada cristalina quando as estrelas já estremecem, temendo perder para o sol iminente o seu brilho frio. Leva os olhos às alturas, como se da mais alta fonte fosses beber, e verás a dança louca e certa da cotovia em sua graça. Repara como o seu canto de coisa selvagem conhece a arte de calar todas as questões, mesmo antes de serem pensadas. E os lábios, sem esforço, saberão deixar o sorriso voar.

Aberta às estradas cósmicas, nesse vazio de ser teremos o repoiso a que os errantes chamam casa.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Quando as Manhãs Eram Flor” (2016). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

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