Subversa

Oferenda aos ventos | Pedro Belo Clara


É de albas longínquas que lenta escorre

esta frescura de tempo assente na raiz

do próprio mistério, de galáxias em naufrágio

pelas orlas dum mar de veludo negro,

ornado de gotas cristalizadas em frio fulgir.

 

Diríamos eternidade o que os olhos

não sabem ver e só o coração pressente,

mas ainda tememos a cegueira dos dedos,

a insistente sedução da fantasia.

 

Deixa as mãos no regaço antes da luz partir:

serão sementes sem pressa ou anseio

de florir em níveas aves; deixa os cabelos

aceitarem o convite dos sopros dançantes,

os flancos junto destes braços que os cingem;

deixa o corpo na sua fragilidade de mariposa

e talvez lembre as estradas imensas abertas

para além da sina que a morte lhe traçou.

 

Que se cerrem os olhos num suspiro,

assim como se entregam as pequenas folhas

aos desígnios de quem conhece mais

do que o seu jeito de trevo ou rosa diz saber;

que se cerrem em ternuras e, quietos,

nessa obscura dimensão néscios tropecem

no delicado manto do excelso sol

prometido pelo primeiro orvalho.

 

Ainda a cotovia dirá de nós: são luz depurada

por sobre os campos do amanhecer.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Quando as Manhãs Eram Flor” (2016). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Raul Manuel Freitas Araujo Rocha 12 de janeiro de 2019 em 14:49

    Em todo o poema, a calidez : dos versos e da “pintura”…A palavra / pincel traz ao coração e aos olhos este poema de quietude….Liiindo!!!!Obrigada, meu amigo, por tão bem entender as palavras e tão bem fazê-las chegar até nós!!
    Conceição Lima

    • Pedro Belo 12 de janeiro de 2019 em 21:45

      Ora, minha amiga, eu é que agradeço o tempo que me reservou! É, de facto, um poema visual, como tantos que tenho feito, quase um quadro em movimento lento partilhado por palavras – onde o apelo ao Belo e uma serena sede de transcendência também se fazem notar.
      Apraz-me saber que a leitura foi do seu agrado =)
      Beijos e até breve.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367