Subversa

Os Limoeiros | Um Lírio sobre os Olhos


Pedro Belo Clara

Fotografia: “logoboom”


Olha os limoeiros,
os limoeiros meu amor.

Aos limoeiros entrega
os olhos de porcelana fina,
os teus olhos meu amor;
vê como se erguem:
altas colunas de jade
donde pendem globos
de oiro jovem, palpitando
num horizonte que a custo
detém a luz esparsa.

Dos limoeiros sorve
a frescura da hora fulva,
desta hora meu amor,
onde às portas de tudo
que outrora foi nosso
– pó por sobre as mãos
gastas de carícias –
me despeço, enfim.

Morrerei em teu seio,
em teu seio meu amor,
coberto pelos ângulos
do carinho que em ti
não pereceu ainda.

Olhemos os limoeiros,
os limoeiros meu amor:
a última memória viva
do tempo em que beijo a beijo
colhi todos os frutos
do teu corpo em flor.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Quando as Manhãs Eram Flor” (2016). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Conceição Lima 20 de março de 2018 em 16:52

    Pedro, que apelativo ! Linguagem sólida mas trespassada de um lirismo muito seu onde sempre mora uma certa e contida melancolia.Sinto um simbolismo, sóbrio e como sempre harmónico!Dá voz e dimensão ao AMOR…Já nãp o saberia encaixar senão neste traço lírico!!Um beijo e a minha admiração!!

  2. Pedro BC 20 de março de 2018 em 17:11

    Amáveis palavras as suas, minha cara amiga… Muito obrigado pela sua leitura, que sempre me honra.
    É isso mesmo, concordo em pleno com o seu comentário. A raiz do poema, lírico, é efectivamente melancólica, desde logo pelo símbolo que são os limoeiros aos olhos do sujeito poético, por aquilo que nele evocam. Há também uma entrega ao porvir, ao desconhecido, que parte da alegria vivida, agora só possível em memórias. Daí que a dúvida subsista: “se tanta luz se bebeu em dias idos, como agora poderá ser possível algo mais? O que pode existir para além do mais precioso dos tesouros?”. De resto, cada traço foi, como sempre, desenhado à imagem de quem lhe deu voz.
    Reforçando os agradecimentos me despeço.
    Beijos.

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