Subversa

Palimpsesto: o modo de cantar “o lixo, a catedral e a forma das mãos” [1]

por Giovane Adriano dos Santos


Não se espantem com a brevidade deste texto. Penso que há ocasiões que exigem pouca dicção.

Caminhemos, agora, ao teatro em que, à vista de Bentinho, Desdêmona seria morta. Naquele contexto, o narrador-personagem da obra que ajudaria a colocar o Bruxo do Cosme Velho na estante dos “grandes escritores” assistia ao que se desdobrava diante de seus olhos ciumentos e admirava, sobretudo, o ato final da peça… Machado lavava o tecido em que o novo seria (re)escrito e fazia com que as personagens criadas por Shakespeare fossem (re)vividas em outras situações.

Às vezes, o palimpsesto revela-se como crítica social, de modo que o processo de escovar as letras gravadas nos discursos oficiais dá voz a uma (re)escrita contrária ao governo ditatorial de um país. Exemplo disso é o Dinossauro Excelentíssimo, de Cardoso Pires, que, ao falar da câmara de torturar palavras e do Imperador daquele Reino fictício, denuncia o medo e outros problemas relativos a um momento histórico conturbado da política de Portugal.

O palimpsesto pode, noutras situações, ser bem mais sutil. É o que se encontra em Coivara da Memória, de Francisco Dantas, em razão das pontuais linhas que podem ser lidas como referências a autores específicos: o menino apegado aos preás não seria alusão a Graciliano Ramos e à Baleia? [2] E o brilho das “réstias de sol” não teria sido encontrado em Eça de Queiroz? [3]

Já seguindo para o fim, ouçamos uma voz que vem da direção de Divinópolis/MG. É Adélia Prado que, diante do espelho, cria um texto e dá forma para O homem da mão seca. Nesta obra, ainda que o título faça eco a trechos da narrativa bíblica, é a própria autora o tecido sobre o qual a nova “poética” vai sendo anotada… A ampla crise vivida pela protagonista é simbolizada por uma dor de dente e vai ao encontro de um momento depressivo de Adélia. Assim, é bom enfatizar, o palimpsesto (re)define a autora que, em crise, estava com a “mão atrofiada” para a criação dos versos.

Em resumo, o palimpsesto é a forma da arte e, portanto, é linha pra qualquer tecido. Fazer um palimpsesto é dar contorno ao lixo, à catedral, a outros textos, ao amor, ao ódio, ao medo, à infância, à velhice… É levantar a voz contra a ditadura, a injusta distribuição dos bens.

Antes de convocar um ponto final a este escrito, peço desculpas por não ter feito referência a nenhum(a) autor(a) de Língua Portuguesa estranho(a) ao eixo Brasil-Portugal. É falha de uma formação que, inacabada, requer que eu volte o palimpsesto aos dicionários, sem a certeza, todavia, de ter sido feliz ao retirá-lo do repouso em que se encontrava.


Notas:

[1] Do poema “Anunciação ao Poeta”, de Adélia Prado.
[2] Vidas Secas, de Graciliano Ramos.
[3] O crime do padre Amaro e As cidades e as serras, de Eça de Queirós.


GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, MG. Publica na Revista Subversa no quinto dia de cada mês.

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367