Subversa

Para que terroristas em tempos de poetismos? | Felipe G. A. Moreira [Metamodernismo]


“Meat”, Sara Shamma (2014)


Para que poetas em tempos de terrorismos? Esse é o título da última coleção de poemas do Alberto Pucheu publicada em 2017 pela Azougue Editorial. Esse também é o título de um dos poemas dessa coleção. Esse poema, interpreto, evita a objeção do obscurantismo autoritário.

A objeção do obscurantismo autoritário é uma que os positivistas lógicos (e.g., Carnap) fizeram aos que eles chamavam de metafísicos (e.g., Heidegger). A objeção é que, ao se valerem de usos obscuros de linguagem, metafísicos agem de modo autoritário.

Um uso obscuro da linguagem é um que aplica uma palavra ordinária (e.g., “nada”) de modo extraordinário sem explicitamente determinar quais regras sintáticas e/ou semânticas regulariam esse uso extraordinário e/ou um que se vale de uma palavra extraordinária (e.g., “nadifica”) sem determinar quais regras sintáticas e/ou semânticas regulariam o uso dessa palavra.

Exemplos de ações autoritárias são: fingir ser uma coisa (e.g., alguém capaz de articular proposições) que não se é, não estar disposto a mostrar razões para se aceitar ou rejeitar uma posição filosófica, ironizar oponentes filosóficos, se recusar a responder objeções, se permitir ter seguidores que meramente repetem suas frases como palavras de ordem, etc.

Muitos (talvez a maioria) dos filósofos analíticos contemporâneos crê que a objeção do obscurantismo autoritário se aplica a alguns filósofos continentais franceses que articularam filosofias mais por assim dizer `poéticas` e (na visão desses filósofos analíticos) não-argumentativas. Penso nos filósofos nietzschianos franceses. Tipo: Bataille, Klossowski, Blanchot, Foucault (sobretudo, o da década de 60), Deleuze (sobretudo, nas obras com o Guattari), Derrida, etc.

Não quero debater se os positivistas lógicos ou os filósofos analíticos contemporâneos tem por assim dizer razão. O que me importa aqui é tentar mostrar que esse poema do Pucheu —“Para que poetas em tempos de terrorismos?” —pode ser lido como uma maneira de evitar a objeção do obscurantismo autoritário.

Isso porque esse poema faz meio que o inverso dos filósofos franceses que eu nomeie. Esse poema expressa uma poesia mais por assim dizer filosófica e, na minha leitura, argumentativa. Essa poesia não faz um uso obscuro da linguagem. Daí, ela não legitima práticas autoritárias.

O argumento que eu acho que o “Para que poetas em tempos de terrorismos?” implicitamente articula é o seguinte. Premissa 1: Existem terrorismos por toda parte. Premissa 2: Se isso é o caso, poetas tem uma razão de ser em tempos de terrorismos; eles devem mostrar que existem terrorismos por toda parte. Logo, por modus ponens dessas premissas, poetas tem uma razão de ser em tempos de terrorismos; eles devem mostrar que existem terrorismos por toda parte. Esse argumento é válido.

Não é óbvio, mas eu acho que as premissas 1 e 2 também se sustentam. Acho que quem fala no poema do Pucheu nos dá razões para crer nessas premissas.

A razão para se crer na premissa 1 é empírica: a de que é óbvio que podemos ver, ouvir, tocar, cheirar e mesmo degustar que existem hoje terrorismos por toda parte. A existência desses terrorismos é constatável mesmo para além dos sentidos.

“Terrorismo”, eu interpreto que o eu lírico do poema do Pucheu entende, é o ato de não reconhecer a humanidade do outro (tratá-lo feito coisa), é o ato de ter medo do outro e de rotulá-lo “terrorista”. Tratar o outro feito uma carne. Colocar o outro no açougue. Isso é terrorismo.

É isso que indica esse eu-lírico ao dizer que: “terrorista, hoje, é o outro, o que coisificado, escapa/ às diversas escalas, maiores ou menores, / da época do pau de selfie que vivemos, / terrorista, hoje, repito, é o outro, o inferno / do outro, o outro enquanto inferno, terror”.

Note então que “terrorismos” é usado de modo técnico no poema. Técnico: porque não é exatamente no sentido que eu falei acima que a maioria das pessoas usa o termo, “terrorismo”. Isso não significa que o poema do Pucheu faz um uso obscuro de linguagem. O uso é técnico e ao explicitar sua tecnicidade, ele indica regras alternativas para a aplicação da palavra, “terrorismo.”

Logo, nesse sentido técnico parece empiricamente óbvio que existem terrorismos por toda parte: “terrorismo religioso”, “terrorismo midiático,” “terrorismo econômico”, etc.

A razão para se crer na premissa 2 é a de que parece que ninguém (ou que ao menos muito pouca gente que faz parte de qualquer outro campo do saber) parece reconhecer a existência desses terrorismos por toda parte. O poeta, então, tem a função de fazer isso.

Nas palavras do eu-lírico: “o que sobrou para nós [poetas] foi a nossa impotência, / o último reduto de uma força − frágil − crítica / que podemos ter, a que pode mostrar / como poucas outras os poderes estabelecidos [esses que fazem como que terrorismos existam por toda parte e] / que nos assolam”.

E note que esse poema do Pucheu resiste a ser lido como poesia do reconhecimento ou como poesia modernista fracassada. Isso porque quem fala nesse poema não é nem bem um tipo ordinário (feito esses que a poesia do reconhecimento faz falar) nem um tipo da poesia modernista fracassada (essa que repete representações dos outros dos homens brancos que tem sido feitos por mais de 150 anos). Esse eu-lírico é um professor-poeta-filósofo que implicitamente articula o argumento acima e que nisso parece querer fazer uma espécie de poesia filosófica.

Talvez essa poesia filosófica seja influenciada pela que também há de poesia filosófica dos diálogos de Platão. Talvez haja um quê de Sócrates nesse eu-lírico. Falo em termos de “talvez” porque para bancar essas duas últimas frases eu teria que falar muito mais sobre Platão e Sócrates do que dá pra falar aqui.

O que eu posso falar agora é que a linguagem do poema do Pucheu também não é bem nem a quase ordinária da poesia do reconhecimento nem a da poesia modernista fracassada (aquela que repete a linguagem de Baudelaire, Plath, etc). A linguagem desse poema, como as citações acima indicam, é uma que faz versos parecerem frases de ensaios filosóficos.

Não conheço outros poetas que usam a linguagem assim. E o novo que “Para que poetas em tempos de terrorismos?” elogia / aponta é esse de um mundo onde não haveria terrorismos por toda parte. Talvez Platão e Sócrates também estivessem apontando para isso? Não sei. Só sei que eu também queria esse novo aí de um mundo sem terrorismos por toda parte, ainda que terrorismos (nesse sentido técnico do poema do Pucheu) existam desde sempre. Mais: talvez seja mesmo impossível não ser por vezes um terrorista (no sentido de alguém que faz esses terrorismos).

Daí, assumindo que “poetismo” é o ato de escrever qualquer tipo de poema, uma pergunta para o eu-lírico do poema do Pucheu, para o próprio Pucheu e pro resto do mundo: para que terroristas em tempos de poetismos? Minha resposta é o poema XXY.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). No momento, trabalha no que espera tornar seu novo livro de poemas, Sequestro público da senhorita saúde (ainda sem editora). Ele também trabalha como professor de filosofia da Universidade de Miami e na sua dissertação de doutorado sobre metafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras.

Leia os artigos anteriores do Felipe AQUI.

felipegustavomoreira@yahoo.com.br | Site pessoal.

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