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Poemas Ready-Made, o anjo e o sísifo da história | Felipe G. A. Moreira [Metamodernismo]


“Sisyphus” (2017), de Kolesnikov Sergey

Não é nada fácil dizer se existem e, caso existam, quais são as condições necessárias e/ou suficientes para uma obra de arte ser considerada um ready-made. Nem sou muito bobo de tentar fazer isso aqui.

Prefiro só dizer que a “Fonte” de 1917 de Duchamp (o ready-made por excelência) tem as seguintes características. Ela foi exposta no que foi socialmente reconhecido como uma exposição de arte (seja lá o que seja arte) no Grand Central Palace em Nova Iorque em 1917. Mais: a “Fonte” pode até parecer ser um objeto que Duchamp não criou, um urinol. Mas esse urinol foi minimamente adulterado por Duchamp no que ele o intitula “Fonte” e escreve “R. Mutt 1917” nele.

Também só prefiro pressupor que um poema ready-made é um que tem três características mais ou menos similares às características da “Fonte”.

Primeiro, esse poema é publicado em alguma mídia que é socialmente reconhecida como sendo uma na qual poemas (seja lá o que sejam poemas) são expostos. Exemplos dessas mídias são: blogs, revistas, sites, livros de poesia, etc.

Segundo, um poema ready-made é um texto cujo autor pode até não parecer ser o autor que assina o poema.

Terceiro, aquele que assina o poema ready-made é um autor-mínimo. Isso porque, ao invés de criar todo um texto, esse autor adultera um texto já existente. Por exemplo, esse autor-mínimo intitula ou re-intitula o texto, traduz o texto, insere, muda e/ou corta algumas palavras do texto, reorganiza algumas frases, meramente transcreve o texto, etc.

Durante o século XX e até hoje, artistas fizeram todo tipo de ready-made. Mas não quero tratar disso aqui. O que eu quero dizer é que relativamente poucos poemas ready-made foram feitos nos últimos cem anos. Isso não significa que ninguém fez esse tipo de poema.

Considere, por exemplo, o Seven American deaths and disasters do Kenneth Goldsmith, publicado pela Powerhouse Books em 2013. Não acho louco dizer que esse é um livro de poemas ready-made. Eu mesmo já fiz alguns desses poemas. Tipo: o Maradona”, que eu escrevi nem me lembro mais quando e foi criado a partir da narração do Víctor Hugo Morales do segundo gol do Maradona contra a Inglaterra na Copa de 1986.

O que eu também quero dizer é que acho que o Guilherme Gontijo Flores também fez vinte e cinco poemas ready-made no Tróiades: remix para o próximo milênio. Esse é um trabalho de 2014 que tem duas versões: a impressa e a online. Essa versão impressa, eu não li. Ela saiu pela editora Patuá, e é uma caixa feito uma de cartão postais.

A outra versão do Tróiades é o seguinte site: https://www.troiades.com.br/. Foi esse site que eu li. Nele, pode-se ver uma página com vinte e cinco fotos. Quando uma das fotos é clicada, um poema aparece. Ao fundo, ouve-se a música “Genocide — Symphonic Holocaust” do Maurizio Bianchi. Nesse site, também dá pra ler a tradução para o inglês do Rob Packer para os poemas do Tróiades. Poemas esses que estou dizendo que são ready-made por conta do seguinte.

Pra começo de conversa, esses poemas foram expostos em mídias (isto é, na caixa publicada pela Patuá e no site que eu acabei de mencionar) que são socialmente reconhecidas como sendo mídias nas quais poemas são expostos.

Mais: esses poemas são textos que até podem parecer não terem sido criados pelo próprio Guilherme Gontijo Flores. Mas, sim, por Eurípides, Sêneca e Walter Benjamin.

Isso porque o autor do Tróiades é um autor-mínimo que recorta, traduz livremente e remaneja os seguintes textos: a Hecuba (424 a.C.) e a Troiades (415 a.C.), de Eurípides; a Troades (c-54-64 d.C.), de Sêneca; e o aforismo 9 de “Über den Begriff der Geschichte” (“Teses sobre o conceito da história”) (1940) do Walter Benjamin.

Não posso falar de todos os poemas do Tróiades aqui. Quero só fazer alguns comentários sobre o poema ready-made que adultera esse texto do Benjamin que eu acabei de mencionar.

O nome desse poema é “Tombeau”, o que significa “túmulo” em português. Ele está no meio da página do site, e aparece depois que se clica numa foto do André Luís do túmulo da Inês de Castro.

O “Tombeau” me interessa mais do que os outros poemas ready-made do Tróiades. A razão é que esse poema adultera um texto que é mais de filosofia do que de poesia. Também nem sei como associar esse poema à poesia do reconhecimento ou à modernista fracassada.

Mais importante: leio que três teses filosóficas podem ser extraídas do “Tombeau”. Teses que eu meio, só muito meio mesmo que diria que o Benjamin defende, ainda que eu nem seja muito bobo de me comprometer muito fortemente com teses exegéticas sobre Benjamin aqui.

A primeira tese é que existe um paraíso. Isto é: uma vida imaterial após a morte material. Quero dizer: minha leitura é que o eu-lírico do “Tombeau” não usa o termo “paraíso” metaforicamente. Do mesmo modo: Benjamin talvez não esteja usando o termo alemão “Paradiese” metaforicamente. O termo que esse eu-lírico usa de modo metafórico é o termo “céu”. O termo que o Benjamin parece usar metaforicamente é o alemão “Himmel”. Metaforicamente, porque “céu” significa “paraíso” em “Tombeau” e “Himmel” parece significar “Paradiese” no texto do Benjamin. Nisso, acho que o Benjamin e o eu-lírico do “Tombeau” estão ontologicamente comprometidos com a existência de um paraíso.

A segunda tese que eu extraio do “Tombeau” é que existe progresso. Progresso no sentido de um processo por meio do qual a vida material se torna mais parecida com a vida imaterial do paraíso. O eu-lírico de “Tombeau” aponta para esse viés ao falar sobre “um vendaval” que enlaça as asas de um anjo da história que é “arrastado ao futuro”. Na última frase do aforismo 9 do “Teses sobre o conceito da história”, Benjamin explicitamente afirma que “esse vendaval [ou tempestade, na tradução do Sérgio Paulo Rouanet, “Sturm” no original] é o que chamamos progresso [Fortschritt]”.

A terceira tese que eu extraio do “Tombeau” é que a `unidade` a partir da qual o progresso deve ser medido é o que eu vou chamar de lembrança dos mortos derrotados. Isso significa dizer que há progresso, quando é explicitado que todo “monumento de cultura” [Dokument der Kultur] é um “monumento de barbárie”, para colocar nos termos do sétimo aforismo do texto do Benjamin.

Nesse sentido, progresso não se daria meramente por meio do reconhecimento de que, por exemplo, as pirâmides do Egito são um monumento de cultura que mostra como os egípcios superaram a engenharia que existia até então. Progresso se daria ao se reconhecer que isso é o caso ao mesmo tempo que as pirâmides do Egito também são um monumento de barbárie. No sentido que milhares de escravos não-egípcios tiveram que morrer para que as pirâmides fossem construídas.

O anjo da história, então, vai em direção ao paraíso de “costas”. Por um lado, ele reconhece a vitória dos vitoriosos (no caso das pirâmides, os egípcios). Por outro lado, ele busca fazer justiça aos derrotados (no caso das pirâmides, os escravos não-egípcios), mesmo que só depois que os derrotados morreram, mesmo que só depois que eles estão em túmulos.

Faz então certo sentido associar “Tombeau” à Inês de Castro. Isso porque ela também só teve uma espécie de justiça (foi reconhecida como rainha), depois da sua morte, no seu túmulo.

Mas…

E se não existe paraíso? E se, sendo assim, não existe progresso (no sentido acima)? E se também não existe nenhuma unidade não problemática para medir o progresso (mesmo em algum outro sentido menos problemático de progresso que não pressuponha a existência de um paraíso)?

Minha resposta para essas perguntas é outro poema ready-made“O sísifo da história”, uma espécie de réplica ao Benjamin e ao eu-lírico do “Tombeau”, criada a partir de algumas deformações do “Tombeau” e do texto do Benjamin.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). No momento, trabalha no que espera tornar seu novo livro de poemas, “F.G.A.M”. Ele também trabalha como professor de filosofia da Universidade de Miami e na sua dissertação de doutorado sobre metafísica,Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras.

Leia os artigos anteriores do Felipe AQUI.

felipegustavomoreira@yahoo.com.br | Site pessoal.

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