Subversa

Por uma poesia metamodernista | Felipe G. A. Moreira


Texto e fotografia: Felipe G. A. Moreira


Não sou o primeiro a usar o termo “metamodernismo”. Acho que o Mas’ud Zavarzadeh foi quem primeiro usou esse termo num artigo de 1975. O artigo se chama “The Apocalyptic Fact and the Eclipse of Fiction in Recent American Prose Narratives”. Não estou particularmente influenciado por ele ou por qualquer outra pessoa que já usou o termo, “metamodernismo”.

Quem me inspirou a usar esse termo foram os filósofos analíticos contemporâneos. Esses filósofos usam termos tais como “metaontologia”, “metametafísica”, “meta-ética”…  E ao invés de diretamente fazerem ontologia, metafísica ou ética, eles pensam sobre os pressupostos, as disputas e os critérios para abordar as disputas dessas três áreas da filosofia.

Nisso, eles pretendem pensar para além desses pressupostos, disputas e critérios. Note que a palavra “meta” tem uma ambiguidade: ela significa tanto “sobre” quanto “além”. A metaontologia então é meio que forcluída à ontologia, a metametafísica é meio que forcluída à metafísica, etc.

Analogamente, o poeta metamodernista é aquele que ao invés de fazer poesia modernista, pensa sobre os pressupostos dessa poesia e nisso pretende também pensar para além dessa poesia.

O metamodernismo então também é forcluído ao modernismo. Ele é A Criança Recém-Nascida do Útero Modernista. O modernismo é feito a mãe do metamodernismo.

E como já indiquei na minha segunda coluna e na minha terceira coluna, o poeta modernista é aquele que pressupõe (por vezes, inconscientemente) três normas: poetas devem escrever poemas sobre desviantes, poetas devem usar linguagens alternativas e poetas devem elogiar/apontar para o novo. Uma poesia modernista é uma que satisfaz essas normas.

Por sua vez, o poeta metamodernista é aquele que tem consciência, problematiza e (paradoxalmente) ainda assim satisfaz ou ao menos tenta satisfazer as normas da poesia modernista. Assim, esse poeta faz ou ao menos tenta fazer uma poesia metamodernista. Isto é: uma que satisfaz ou ao menos tenta satisfazer uma outra norma. A outra norma é justamente a de que poetas devem ter consciência, problematizar e (paradoxalmente) ainda assim tentarem satisfazer as normas da poesia modernista.

Assim fala o metamodernista então: por uma poesia metamodernista.

Porque, pra começo de conversa, não é mais desviante retratar os desviantes modernistas (os outros do homem branco), não é mais alternativo usar os usos de linguagem alternativos dos poetas modernistas e não é mais novo elogiar/apontar para o novo desses poetas.

Pense no louco-vagabundo-judeu errante de Baudelaire, na mulher que fala em “Papai” de Sylvia Plath, na Irene “preta” e “boa” de Bandeira, nos drogaditos e gays de Ginsberg, nos judeus de Paul Celan, nos alcoólatras de Bukowski, etc. Pense nas linguagens alternativas desses poetas assim como nas de Mallarmé, E.E. Cummings, Apollinaire, Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, etc. Pense no elogiar/apontar para o novo que todos esses poetas elogiaram/apontaram. Isso desde o século XIX. Isso durante todo o século XX. Isso até hoje.

O metamodernista é aquele que acha que a poesia modernista já está meio que esgotada. Porque não dá para continuar a fazer poesia modernista como se esses mais de cem anos não tivessem se dado.

Assim fala o metamodernista então: por uma poesia metamodernista.

Porque, pra continuar a conversa, hoje é esperado que poetas satisfaçam as normas modernistas. Essas normas são mesmo esteticamente opressivas, penso. Elas são mesmo meio que As Novas Escrituras Estéticas da Nosso Tempo. E, na verdade, acho que elas contribuíram e ainda contribuem para uma transição que se dá no Ocidente. A transição é uma entre dois standards de opressão.

O primeiro standard é o tradicional: o de que todo mundo tem que se comportar, pensar, usar a linguagem e mesmo se sentir como um homem branco. Esse homem, como disse na segunda coluna, que não é só branco. Ele é europeu, heterossexual, de classe média ou alta. Ele domina as regras por assim dizer “ordinárias” de uma língua europeia. Ele é adulto, racional, trabalha, tem valores mais ou menos cristãos, etc. Esse standard tem sua origem na Grécia Antiga, acho.

O segundo standard é o que todo mundo tem que se comportar, pensar, usar a linguagem e mesmo se sentir de um modo que não cause choque ou constrangimento em ninguém (sobretudo, nos outros do homem branco).

Choque no sentido de um sentimento de estar ofendido com alguém ou alguma coisa que desrespeitou algo que você valoriza.

Constrangimento no sentido de uma forma mais leve de choque; o sentimento de se sentir meio bobo triste, meio estúpido depois que alguém ou alguma coisa desrespeitou algo que você valoriza.

Acho que esse segundo standard tem sua origem nos EUA do pós-segunda guerra, lá pela década de 60. Nos EUA, acho, esse segundo standard é muito mais presente do que no resto do mundo.

Todos os poetas modernistas que eu mencionei acima tentavam resistir ao primeiro standard. Mas eles pouco falavam do segundo standard. Na verdade, talvez eles tenham mesmo contribuído (inconscientemente) para que esse segundo standard se propagasse. Isso porque os poetas modernistas constantemente retratavam situações onde a distinção entre opressores e oprimidos é clara e distinta. Considere o louco-vagabundo-judeu errante de Baudelaire. Ele é oprimido e claramente distinto do homem adulto do mundo pequeno cheio de spleen e tédio que o oprime.

Pense na mulher que fala em “Papai” de Sylvia Plath. Ela é oprimida e claramente distinta dos homens alemães fascistas que a oprimem, os papais. Pense também na Irene de Bandeira, nos drogaditos e gays de Ginsberg, nos judeus de Paul Celan, etc. Eles são oprimidos e claramente distintos de seus respectivos opressores.

Assim fala o metamodernista então: por uma poesia metamodernista.

Porque, para acabar com a conversa por agora, a poesia metamodernista talvez paradoxalmente ainda consiga satisfazer as normas modernistas.

Ou ao menos é isso que eu gostaria de crer que ela consegue fazer.

Minha pretensão então é retratar desviantes em relação aos desviantes modernistas. Quero dizer: desde há dez anos atrás no Parque, passando pelo Por uma estética do constrangimento de 2013 e nos poemas que eu escrevi nos últimos 5 anos, acho que eu sempre estive interessado em falar sobre os outros do segundo standard.

Eu chamo esses outros que não são os outros do homem branco de os outros do cordeiro em si. O cordeiro em si é uma espécie de entidade abstrata que consegue satisfazer esse segundo standard.

Esses outros do cordeiro em si podem ser homens ou não-homens, brancos ou não-brancos, de classe média-alta ou não-classe média-alta, heterossexuais ou não-heterossexuais, etc.

E o que me interessa não é retratar situações onde a distinção entre opressores e oprimidos é clara e distinta. Na verdade, meu foco é nas situações onde não está claro quem é o oprimido e quem é o opressor. Os tipos da poesia metamodernista são meio que os dois ao mesmo tempo.

Respondendo implicitamente ao Baudelaire, no Parque e em alguns poemas do Por uma estética do constrangimento (e.g., “A mulher da terra do nunca”) eu quero retratar adultos infantilizados meio presos no “mundo pequeno” meio soltos no “mundo grande”. Minha resposta para a Plath é falar de mulheres que são abusadas e abusivas ao mesmo tempo. Tipo a Kate no “Kate diz a si mesma”, a “Kαkός Lady”, aquela que fala em “Hitler foi refutado. Eu não fui”, etc.

Eu também quero falar e fazer falar homens que são abusados e abusivos feito aquele que fala no “Eu sou O Homem ambíguo com a flor ambígua”. Eu também quero fazer falar homens abusivos que se sentem culpados. Mas só que não. Mas só que sim. E nisso homens que tem uma “justificativa” para serem abusivos. “Justificativa”: as aspas são tensas.

Esse meu poema, Chuck Traynor, é uma “justificativa”. Chuck Traynor foi o marido abusivo da atriz pornô, Linda Lovelace. E note que o eu-lírico que fala no meu “Chuck Traynor” obviamente não pode ser identificado ao Chuck Traynor real. A relação entre eles é (por assim dizer) uma de deformação. Feito um autorretrato. Que não é bem auto. Que não é bem retrato.

O que me interessa é retratar gente moralmente ambígua. Gente que fala de modo moralmente ambíguo. Gente má. Só que meio que boa. Só que meio má. Os meus judeus são meio nazistas. Os meus negros são meio racistas. Os meus esquerdistas cheiram cocaína nas Tetas da Grande Loira Americana num iate em Miami. Me interesso pela pessoa depressiva filha da puta que se “justifica” moralmente por conta da sua depressão. A pessoa depressiva que se mata e te deixa sozinho pra criar as crianças.

Me interesso por poetas modernistas fracassados em festas de filósofos analíticos. E também pelo O Eterno e Novo Messias que eu chamo de F.G.A.M. Messias só que não. Só que sim. Só que só um auto-iludido com complexo de superioridade. É esse o eu-lírico de “O crucificado”, por exemplo. Eu espero que ele também seja um outro do cordeiro em si. E que fique claro que ele é meio Jesus. Só que não. Meio Zaratustra. Só que não. Porque eu também sou nietzschiano. Só que não.

Outra pretensão minha é usar uma linguagem que seja alternativa em relação às linguagens alternativas dos modernistas. Essa linguagem é alternativa no que ela meio que tenta gozar com os recursos formais dos poetas modernistas, sem ser meramente a linguagem quase ordinária dos poetas do reconhecimento.

Gozar nos poetas modernistas mostrando que, ao contrário do que eles parecem crer, não existe linguagem alternativa nenhuma que faz alguém viver de modo mais real, mais intenso, mais em contato com as vísceras do que é, mais mundo grande pra além do pequeno.

Gozar nos poetas modernistas usando os recursos formais do choque para mostrar a própria banalização do choque, a própria impossibilidade do choque talvez.

Minha esperança é estar usando essa linguagem alternativa às linguagens alternativas modernistas meio que em tudo que eu escrevi nos últimos dez anos.

Mais: eu também tento fazer uma poesia que elogia/aponta para um novo que é novo em relação aos velhos novos dos poetas modernistas e esses velhos novos são como uma roupa que não me serve mais.

E o novo novo que eu tento fazer é o de um mundo onde poetas não mais tentariam satisfazer as normas modernistas. Um mundo onde o segundo standard não mais oprimiria todo mundo o tempo todo. Eu aposto então que saúde em poesia hoje é viver de modo que aponte para esse novo novo aí. Eu também aposto que doença em poesia hoje é fazer a poesia do presente que os poetas do reconhecimento e os modernistas fracassados fazem.

Eu espero mesmo que retratando os desviantes em relação aos desviantes modernistas, usando uma linguagem alternativa em relação às linguagens alternativas modernistas e elogiando/apontando para esse novo novo, eu seja capaz de causar senão choque ao menos constrangimento.

Constrangimento: sobretudo, nesses novos moralistas. Os mais novos amantes do espírito de rebanho, Os Devotos do Cordeiro em Si. Constrangimento: sobretudo também, nos poetas do reconhecimento e nos poetas modernistas fracassados.

Isso não significa que eu ache que tudo que eu escrevi seja metamodernismo. Acho ou ao mesmo espero que outras coisas estejam acontecendo nos meus textos que não sejam obviamente alinhadas ao metamodernismo. Outras coisas que apontam para outras direções. Tipo: meta-romantismo, meta-medievalismo, pseudo-autobiografia, pseudo-auto-difamação, poesia para rir da razão (sobretudo, daquilo que a filosofia analítica toma como razão), confissões depressivas, poesia de não sei que lá, etc….

Isso também não significa que eu acho que todos os poetas que não sejam eu mesmo sejam poetas do reconhecimento ou modernistas fracassados. Tem muita gente que resiste a ser qualificada assim. Gosto do que eles fazem. Quero falar sobre alguns deles nas próximas colunas.

***


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). No momento, trabalha no que espera tornar seu novo livro de poemas, Sequestro público da senhorita saúde (ainda sem editora). Ele também trabalha como professor de filosofia da Universidade de Miami e na sua dissertação de doutorado sobre metafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras.

Leia os artigos anteriores do Felipe AQUI.

felipegustavomoreira@yahoo.com.br | Site pessoal.

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