Subversa

Quando não se morre | Rui Machado

“Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso, a inspiração.”

Herberto Helder In; A Colher na Boca

 

 

Hoje escrevo do topo da poesia. Perdoem-me a ousadia, mas eu saio já. É só o tempo de escrever sobre alguém que aqui está e desço, prometo. Não se pode escrever sobre Herberto Helder senão daqui, como, por certo, bem compreendem. Eu sei, terei cuidado, descansai. Quero sobreviver a tudo isto. Inusitado, estranho, inquietante, bizarro e paradoxal. Foi assente nestes conceitos que proporcionou uma mudança profunda na poesia portuguesa. Não se fica imune à experiência da linguagem de Herberto Helder, assim disse acertadamente Fernando Pinto do Amaral, professor, tradutor e poeta português. É justo dizer-se que só quis ser poeta e nada mais. Sabia que isso era tudo. Mas não sabia o mundo onde vivemos. E pediam-lhe entrevistas. E pediam-lhe fotografias. Pois, que não as dava nem à lei da bala, se houvesse homens tão corajosos quanto ele. Era um homem mistério, todavia revelou-se um escritor tão verdadeiro que não optou por se apresentar com pseudónimo, como outros fizeram. Só houve uma forma de o conhecer e foi a melhor de todas: lê-lo. Um bom exemplo foi o livro que a Professora Maria de Fátima Marinho escreveu a seu respeito, cuja capa é um enorme ponto de interrogação, pela recusa do autor em fornecer e autorizar a utilização de uma fotografia sua, como definia a linha editorial da colecção. Esta sua incompreensão e até ódio — não é excessiva a palavra — pela era da imagem e cultura das massas, veio ter também implicações nas publicações próprias como foi o caso do livro O Corpo o Luxo a Obra, que teve uma edição com pouquíssimos exemplares, numa decisão conjunta com o seu editor de então Vítor Silva Tavares. Outros livros tiverem tiragens reduzidas, mas este em particular torna-se interessante referir não só por nos trazer quase que um autor sacerdote em homilia muito ligado às fontes obscuras do sagrado, mas também pela história que se conta de que o seu antigo editor Luiz Pacheco (também ele um autor incontornável) teria contrafeito a obra, coisa que enfureceu Herberto. Todavia, depois de um encontro que começou com bebidas entornadas nas suas barbas e garrafas partidas na cabeça de Pacheco tudo ficou bem e em paz. Aliás, a sua amizade com Luiz Pacheco parecia inquebrável e, por isso, tornava-se também fascinante. O próprio editor conta que gastou o dinheiro que Herberto Helder lhe dera para publicar Salmos — o seu segundo livro depois do sucesso alcançado no primeiro O Amor em Visita de 1958 —, num jantar com a mulher no Dafunto. O autor não se terá aborrecido com o editor. É difícil conseguir perceber, em rigor, o que será mais bizarro em tudo isto. Contudo, torna-se evidente que falamos de um homem muito diferente, que pensava e sentia de modo diverso a nós, tristes mortais.

Da sua obra pode-se dizer que se tratou de uma construção própria com substâncias e concepções idiossincráticas. Com caminho percorrido no surrealismo e na poesia experimental, daí soltou-se para libertar todo o seu génio e cimentar uma poética que só se pode classificar como Herbertiana. Obscuro, sim. Atormentado, também. Encadeado, rítmico, cardíaco, sem dúvida alguma. Também místico e edipiano, com certeza. É só para corajosos por, de intenso e surpreendente, se manifestar como um sismo. A sua paixão pela linguagem e pela cultura constata-se desde a sua formação académica que, de resto, não completou — a Faculdade, dizia, matava a originalidade. Depois de ser aluno da Faculdade de Direito de Coimbra, mudou-se para a Faculdade de Letras a fim de frequentar o curso de Filologia Românica. Todavia, essa devoção à linguagem e cultura tomaria corpo nos seus livros quando publica poesia asteca, ameríndia, francesa e norte-americana. Curioso é o facto de não assumir que traduz, refere antes que “muda”. Mas porque não há poetas sem mundo, Herberto Helder, a dada altura, foi para fora do país. Viveu por França, Holanda e Bélgica, onde exerceu profissões surpreendentes como cortador de legumes numa casa de sopas, empacotador de aparas de papéis ou ainda guia de marinheiros pelo mundo da prostituição. Esta última remete-nos para o seu interesse e fascínio pelo underground que encontramos na sua obra. Acabaria por ser repatriado por viver na indigência. No regresso, assume o trabalho de responsável pelas bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. E, depois, finalmente, chegou-lhe o justo e o melhor da vida: viver da sua escrita. Sempre na obscuridade na sua literatura e também da sua personalidade, construiu solidão à sua volta. Recusou uma bolsa literária da Gulbenkian, recusou o Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários em 1988 e recusou o Prémio Pessoa de 37.000€ em 1994. Entendia qualquer prémio ou nomeação honrosa como o reconhecimento do poder e nisso, o poeta, não tinha qualquer interesse. Foi em 1968 que deu a sua última entrevista e desde então nunca mais trabalhou a divulgação do seu trabalho, se é que alguma vez o fez na verdade. Nem na elaboração do documentário biográfico: Herberto Helder – Meus Deus faz com que eu seja sempre um poeta obscuro quis colaborar, tento mesmo proibido pessoas próximas de o fazer, o que fez com que das 29 pessoas convidadas, 17 tivessem recusado participar.

Do tanto que fica por dizer torna-se imprescindível que fique muito claro aquilo que assume importância suprema: um poeta não se morre, ganha a vida eterna da obra que criou. No dia 23 de Novembro nascia Herberto Helder na Ilha da Madeira, para viver até sempre pelo mundo afora.


RUI MACHADO nasceu em 1983 na cidade do Porto. O seu percurso na escrita conheceu o seu início em 2014 com Finalmente Mar, onde reuniu os seus primeiros poemas. No ano seguinte, apresentou-nos prosa em Uma Forma de Continuar, um livro de contos e crónicas. Qualquer dia, Amo-te é o seu terceiro livro e o regresso a sua casa, à poesia. Para além destes livros, participou até ao momento, num total de mais de duas dezenas de colectâneas/antologias,tanto de poesia como de prosa. | rlucasmachado@gmail.com

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