Subversa

Quase ascensão | Um Lírio sobre os Olhos


Ilustração: Georgianna Lane


Seduz em silêncio
este abandono de corpo,
este despojo de pétalas
e aromas azuis,
esta ausência clara
de olhar e ser.

A vida parece bastar,
se vivida num só dia.

Em cada hora,
em cada passo,
as dobras da memória vadia
depositam-se em vão
na aragem entardecida.

Por tanta cor,
por tantos perfumes
de indecifráveis origens,
somos gotas de água
esquecidas dum oceano milenar.

Talvez, quando as manhãs
nascerem de cinzas
e as pedras abrirem em flor,
consigamos ser estrelas
timbradas no rosto da eternidade.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Quando as Manhãs Eram Flor” (2016). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

 

 

Sobre o Autor

10 Comentários

  1. paulo 10 de janeiro de 2018 em 15:19

    show

    • Pedro BC 22 de janeiro de 2018 em 18:32

      Obrigado pela sua leitura.
      Abraço.

  2. Rosa Baia 10 de janeiro de 2018 em 22:03

    Que beleza de poema!! A sensibilidade do poeta Pedro, faz desse texto algo tão puró, leve, profundo, que toca minha alma.
    Parabéns, Pedro Belo Clara!!!!!

    • Pedro BC 11 de janeiro de 2018 em 17:22

      Obrigado pelas suas gentis palavras, Rosa. E pela fidelidade das suas leituras. Fico-lhe grato.
      Beijos.

  3. Susana 20 de janeiro de 2018 em 16:35

    Inicia bem o ano Pedro, é lindo o Poema, um abraço.

    • Pedro BC 22 de janeiro de 2018 em 18:33

      Muito obrigado, Susana. Pela gentileza do seu comentário e pela amabilidade de me ler.
      Beijos e até breve.

  4. Ligia Soares Skrebsky 23 de janeiro de 2018 em 16:08

    Sinto um perfume doce que evola no ar, penso que nascem de cada verso seu: “as pedras nasceram flor, somos ‘estrelas timbradas’ neste céu de eternidade. Poemas são eternidades de alegrias perenes…

    • Pedro BC 23 de janeiro de 2018 em 17:02

      Cada poema será, sim, uma eternidade condensada, por vezes um vislumbre de infinito condensado na eternidade possível. Eliot dizia: «cada poema é um epitáfio». Tinha razão, o grande poeta.
      Agradeço a sua visita e o comentário que deixou, Lígia.
      Beijos.

  5. Fábio Amaro 21 de fevereiro de 2018 em 21:54

    Bravo!

    • Pedro BC 1 de março de 2018 em 09:09

      Muito obrigado pela simpatia do seu comentário, caro amigo. Abraço.

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