Subversa

“Réquiem por uma Casa” [Das Áspides de Cleópatra]

Cláudia Capela Ferreira


“Os temas
somos nós à procura da nossa solução”.

 Filipa Leal

Fotografia: acervo da revista

 


O tema maior do livro de Claudia Clemente, A Casa Azul, publicado em Portugal em 2014 pela editora Planeta, é, como o título logo adianta, a casa. Trata-se de uma casa azul, demolida, de onde emergem as memórias de infância, a ligação à família e a esses deconhecidos que parecemos a nós próprios. A casa, enquanto símbolo, sempre constituiu um eixo central na literatura, embora, de acordo com Jean Chevalier, o “símbolo escapa[e] a qualquer definição” (Chevalier 1982: 9). De facto, encobre e descobre, fazendo depender a sua leitura do contexto de onde parte. Para os narradores de A Casa Azul, este símbolo é axial, rememoração de um espaço primordial de plenitude e significação profunda, perdidos, ambos, com a destruição da mesma e a terraplanagem do jardim.  A árvore que fica, outro grande símbolo, sinónimo de ligação da terra ao céu, do material ao espiritual, e do submundo ao terrestre, de vivos e mortos, portanto, passa a representar a porta de entrada para esse jardim secreto da memória, onde os farrapos se confundem. Esta fragmentação da memória e a dissolução do tempo e do espaço são notórios na formatação da narrativa, constituída por cartas, excertos diarísticos, confissões, memórias e, ainda, relatórios, pelas mãos de quatro narradores, que, nesse jeito confessional, ainda que nunca romantizado, estruturam a religiosidade envolta na casa, seja no que ela oferta enquanto manifestação fundadora, seja naquilo que recusa, pela anulação ou carência da mesma.

Não se pode negar, desta forma, no livro em estudo, uma inteira disponibilidade para o mito e para a reatualização do mesmo, numa análise segundo os princípios de Mircea Eliade, já que o símbolo opera esse exercício de reencontro com uma realidade que transcende o rigor espácio-temporal, enquanto manifestação totalizante. Lê-se, portanto, uma epifania simbólica na casa de Claudia Clemente (no que possa, também, haver de autobiográfico e na casa azul das suas personagens. A inexatidão inicial referente às datas, ainda que, a certa altura, elas imprimam sentido cronológico ao texto, enceta a abertura de uma paisagem mais extensa, ilimitada, nunca fechada senão sobre si mesma, no aspeto mítico de que se reveste, inaugurando o indiscernível do illo tempore, assente no que de desejado e conflituoso há no símbolo. Rita, que parece a personagem mais verosímil e completa, refere-o com alguma clareza: “Há passagens abertas no espaço-tempo que depois se fecham, e se não estivermos atentos podemos não ser capazes de regressar” (Clemente 2014: 70). Há, portanto, a purga por via da escrita e, simultaneamente, o convite à sedução de Mnemosine, inferindo, as personagens, da sua identidade, do sentimento de profunda incompletude demonstrável na ininteligibilidade do real.

Foto: acervo da autora

Laminar esta casa é entender como ela age sobre as personagens: uma família separada, de que o símbolo é, afinal, grande manifestação. Se duas delas, Ar e Terra, Rita e Aurora, lastimam a perda da casa, as outras, Água e Fogo, Laura e António, sentem-se deslocadas e errantes, não menos que as anteriores, mas totalmente desfazadas da primeira. Assim, se Ar e Terra conhecem a aparente causa da perda identitária que se opera, renegando a vida com base na carência espiritual que o material palpável representa, os dois últimos, Água e Fogo, são estranhos àquele espaço, ainda que inconscientemente sedentos do mesmo, e, por isso, seguem como um rio ou em chamas, para ele, para esse lugar abstinente, como se o mistério dos laços sanguíneos fosse o único salvífico. Não se descure, porém, a noção de culpa de Aurora e António, conscientes dos resultados das suas escolhas. Este apego maior acaba também por engrandecer um novo símbolo, o da família, o dos elos.

Assim, sublinha-se o carácter mítico desta obra de Claudia Clemente, na medida em que as personagens, entregues que estão ao profano, reagem de forma violenta ao mesmo, certos de uma carência cuja origem podem ou não reconhecer, o que as dispersa enquanto identidades descomprometidas consigo próprias e com o mundo. A casa azul manifesta, então, esse caráter sacro, pois a envolvente profana que a rodeia é amorfa, espaço onde os indivíduos, e, repare-se, separados que se encontram os quatro elementos, estão “esvaziado[s] da sua substância ôntica” (Eliade 1992: 37). A casa alcança a possibilidade de reencontro com o sagrado, respondendo àquilo que Eliade apelida de nostalgia religiosa: “o desejo de viver num cosmos puro e santo, tal como era no começo, quando saiu das mãos do Criador” (Eliade 1992: 37). Não superficialmente, o livro tem início sob esta insígnia: “Dentro dos muros da casa azul, os quatro elementos primordiais. Terra, Ar, Água, Fogo. Era o início e o fim de tudo, o Genésis e o Apocalipse, a vida e a morte. Lá fora, estava o que não interessava, o resto. E o resto era o mundo inteiro.” Clemente 2014).

Imago Mundi, Axis Mundi, o símbolo casa é a imagem do universo e, de acordo com Bachelard, citado por Chevalier, “os seus andares, a cave e o sótão simbolizam os diferentes estados de alma” (apud Chevalier 1982: 166). De facto, a narradora associada ao elemento Ar, cujo nome conhecemos mais tarde, comenta, no seu caderno: “Regresso lá, noite após noite […] os meus pés de fantasma percorrem incessantes os salões, os quartos, a escadaria circular que liga os três andares.” (Clemente 2014: 12). A dissolução do real, a amálgama dos opostos, dos vivos e dos mortos, do real e da memória, do eu e do outro são fundamentais nesta obra, tal como a polifonia inicial, até que o leitor, cúmplice, estabeleça a ordem na história, ordenando-a, se assim o entender.

A Casa Azul, apesar do intimismo da mesma, não deixa de nos convidar a entrar e, da mesma forma que a sua ruína espelha o desalento íntimo e pessoal, não impede, no seu hall, de universalizar o símbolo, referindo-se ao Maio de 68 e, por oposição, à renúncia dos princípios propostos. O símbolo, representado pela casa e pelos laços, instituídos, neste romance, nos quatro elementos primordiais, deixa a questão efetivada: o que é a nossa grande casa hoje, como participamos nela e o que é possível após a ruína dos nossos sonhos enquanto indivíduos sociais?


Referências:

Clemente, Claudia (2014): A Casa Azul. Lisboa: Grupo Planeta.

Chevalier, Jean e Gheerbrant, Alain (1982): Dicionário dos símbolos : mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Trad. de Cristina Rodrigues e Artur Guerra. Lisboa: Teorema.

Eliade, Mircea (1992): O Sagrado e o Profano. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora.


CLÁUDIA CAPELA FERREIRA é trasmontana por nascimento e europeísta por convicção. Doutorou-se em Estudos Literários Portugueses com uma tese sobre a poética torguiana. Escreve sobre literatura e cinema.

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