Subversa

Sem título | Astronauta de Pulôver Azul Neón

Ilustração de @lilabitten [instagram]


eu imaginava que pudesse dispor
de todas as palavras
ainda mais numa hora como essa
imaginava que teria o dom
de te dizer qualquer coisa que fosse justa
qualquer coisa que fosse verdadeiramente humana
qualquer coisa!

mas tenho os olhos tão caídos
debruçados em meia dúzia de sílabas indissolúveis
um vocabulário precário
que se forma nessa atmosfera sem dizer

obscuras, quebram o silêncio ante o desejo cultivado
e cortam o vento que dá ritmo aos sinos catedráticos
e todo o vendaval de coisas ditas
e os sentimentos lançados por esses lados
romperam sua trajetória nesse exato momento

qualquer coisa quebra miúda dentro dos armários
da sala de jantar
e o cavalo já não relincha
de onde sou capaz de ouvi-lo e do outro lado da rua, eu sei,
vejo o espanto prender a boca aberta e trancar a respiração
da menina que vê o beija-flor suspenso em cima de uma flor
murcha sem se perceber envergar com o sol de abril

eu imaginava que pudesse
……………………..juro que imaginava
eu imaginava que

e já sem fôlego
não imagino mais
e dou ao poder suspenso
o supremo gosto da morte que lhe cabe
e, a nós, mantém aquecida
a solidão compartilhada
nesses dias em que dizer
é dizer nada e saber de mais


FABÍOLA WEYKAMP tem seu primeiro livro de poemas “Resenhas da solidão – um livro de poesia e dor cotidiana”, publicado pela Editora LiteraCidade, Belém/PA, 2015; obra ganhadora do Prêmio LiteraCidade Jovem, 2014. É colunista da Revista Subversa | FABIWEYKAMP@YAHOO.COM.BR

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