Subversa

Setembro | Um Lírio sobre os Olhos


A poalha estival afoga-se
no frescor das primeiras chuvas.
Breves fumos ao céu lançados
misturam sabores de pão e vinho novo.

Agora que a luz reinante
é este vidro que fere fundo,
que as orlas dos caminhos
se adornam de bolotas e fruta pisada,
que as oliveiras ostentam
enfeites furtados à noite por vir,
lembramos como a sede da morte
só vive no ardor da entrega.

Assim o lume recolhe a ávida língua.
O seu fogo não mais é o fogo
que incendiava o coração das cigarras.

Os rios persistem em seus rumos,
mas as mãos tomam o gosto amargo
da folha que abandonada putrifica.
Outros pássaros virão para tecer
melancolias em fio de oiro maduro.

Haja um sorriso no reverso da queda.
Uma qualquer semente dormita
na obscuridade da incerteza.
Deixa a nortada digerir a espuma ácida
dos dias bebidos em asa silente.

As maçãs esperam por nós.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Quando as Manhãs Eram Flor” (2016). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

Sobre o Autor

4 Comentários

  1. Conceição Lima 10 de setembro de 2017 em 17:06

    É sempre um estremecimento ler um poema seu… Na verdade, a Poesia é PÃO DOS ELEITOS…A palavra tem leveza , fragilidade e… assombro!!Fica a ressoar e atravessa a pele…Como sempre, adorei, Pedro…Parabéns!! CL

    • Pedro Belo 10 de setembro de 2017 em 19:36

      Muito obrigado pelas suas palavras, cara amiga. Apraz-me saber o bom impacto que o poema teve em si.
      O assombro que a estes versos está inerente será decerto o mesmo que palpita no meu peito quando iminente se revela a morte do verão. Claro que um novo tempo nascerá… Mas não se cala a melancolia da estação. Então nascem poemas assim.
      Renovo o meu sincero agradecimento. Até breve!
      Beijos.

  2. Marcia Pfleger 13 de setembro de 2017 em 08:36

    Que lindo! Imagético e sensorialíssimo!

    • Pedro Belo 17 de setembro de 2017 em 08:12

      Cara Márcia,
      Muito obrigado pelo seu comentário. Apraz-me saber que a leitura foi do seu agrado.
      Um abraço em poesia.

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