Subversa

“Setembros” e “Enluta” | Fabíola Weykamp [Astronauta de Pulôver Azul Néon]


“Taça da Dúvida”, Victor Brauner (1946).


SETEMBROS

Fabíola Weykamp

o sol no exato ponto
em que se encontrava quando nasci
hoje tem um quê de superstição:
erguer a cabeça o máximo que der
fechar os olhos como quem não enxerga
absolutamente mais nada
e sentir no corpo
dos pés até a última raiz do cabelo
sentir a vibração da terra ao encaixar seu eixo
feito peça lego
a última peça da torre de um castelo
que dá acesso para o que ninguém desconfia
de que anoiteça por ali, nas horas cômodas do orvalho
quando tudo tudo tudo se ajusta ao que faz sentido
nas folhas das palmeiras
na crispa do útero da não-vida anunciada


ENLUTA

Fabíola Weykamp

não sei de onde parte esse desânimo
talvez ele não parta
para isso, seria necessário nascê-lo
acho que ele só está aqui
acomodado em meu ventre
eu o alimento, o mantenho aquecido
e ele só está, enclausurado em mim
no ano de dois mil e dezoito
tropeçando nos dicionários
e mudando os verbetes
quando eles não me atendem mais
acho que é só isso
mudar o significado das coisas
porque nada nesse ano tem feito
grandes questões
de fazer algum sentido
nem mesmo a poesia


FABÍOLA WEYKAMP tem seu primeiro livro de poemas “Resenhas da solidão – um livro de poesia e dor cotidiana”, publicado pela Editora LiteraCidade, Belém/PA, 2015; obra ganhadora do Prêmio LiteraCidade Jovem, 2014. É colunista da Revista Subversa e acaba de publicar “Ensaio sobre a Solidão”, pela Editora Penalux. | FABIWEYKAMP@YAHOO.COM.BR | Clique aqui para ler mais textos da Fabíola.

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