Subversa

Sobre o modernista fracassado sem saber | Metamodernismo |

Felipe G. A. Moreira


Ilustração: “Sylvia Plath”, obra da Chechu Álava

Uma poesia é modernista fracassada se ela tenta ser modernista, mas acaba sendo de reconhecimento. Ela tenta, mas não consegue chocar. Mais exatamente: ela não consegue chocar o leitor não ingênuo que já leu poetas modernistas como Baudelaire.

A poesia modernista fracassada ainda consegue chocar os leitores ingênuos. Feito aquela gente que achou a exposição Queermuseu obscena. Chocar essa gente é fácil. Difícil é chocar o leitor não ingênuo. Esse leitor, acho, não fica chocado com poesia modernista fracassada.

Isso, acho, por conta de três razões.

Primeiro, o tipo pretensamente desviante da poesia modernista fracassada não é desviante em relação aos tipos que foram descritos por poetas modernistas nos últimos 161 anos pelo menos. Imagine um poema contemporâneo que retrata uma espécie de louco-vagabundo-judeu errante ou qualquer outro do homem branco. Esse tipo não é desviante em relação aos tipos retratados no “A Viagem” de Baudelaire.

Segundo, a linguagem pretensamente alternativa da poesia modernista fracassada não é alternativa em relação às linguagens que os poetas modernistas usaram nos últimos 161 anos pelo menos. Pense num poema contemporâneo que usa a linguagem de modo parecido ao de Baudelaire. Tipo: manda uns alexandrinos e a semântica das flores do mal.

Terceiro, o elogio e/ou o apontar para o novo que a poesia modernista fracassada aponta não é novo em relação aos novos que os poetas modernistas elogiaram e/ou apontaram nos últimos 161 anos pelo menos. Imagine um poema que fale de novo sobre o novo do “A Viagem” de Baudelaire. Esse novo de um mundo pós-As Normas Cristãs.

Não é fácil não ser um modernista fracassado. Isso porque ao longo do século XX até hoje, três normas se estabeleceram entre poetas. As normas são: poetas devem escrever poemas sobre desviantes, poetas devem usar linguagens alternativas e poetas devem elogiar/apontar para o novo.

Não é fácil não ser um modernista fracassado. Talvez a poesia modernista fracassada seja hoje no Brasil e no mundo tão dominante quanto a poesia de reconhecimento.

Talvez você seja um modernista fracassado sem saber.

Me deixe tentar mostrar o porquê. Considere o “Papai” da Sylvia Plath, escrito por volta de 1962. Esse poema é o que eu entendo como um poema modernista não fracassado.

O poema de Sylvia Plath é do início da década de 60. Isso é importante. Isso porque em relação ao contexto da poesia da época, o eu-lírico desse poema é desviante, a linguagem do poema é alternativa e o elogio/apontar para o novo do poema é de fato novo.

O eu-lírico desse poema é uma mulher que reconhece que existe e está em constante oposição à opressão patriarcal. Opressão patriarcal: uma série de normas que estão por assim dizer “no ar”, mas que de fato são aplicadas nos corpos daquelas que são e/ou que são socialmente percebidas como sendo mulheres. Nisso essa opressão faz com que mulheres ocupem certas posições na sociedade, ao invés de outras posições. Certas posições: mãe, esposa, etc. Outras posições: poeta, filósofa, etc.

O eu-lírico de “Papai” está em constante oposição à opressão patriarcal. Constante oposição é diferente de superação ou eliminação. Porque não é como se essa mulher fosse ingênua de achar que ela acabou com o patriarcado. No estilo: pós-mim, tem nem mais problema de gênero.

Ela não diz: “Daddy, I killed you”. Ela diz: “Daddy, I have had to kill you”. Citei o original porque o verbo ali é o “past continuous”. De modo que quem fala em “Papai” está falando de algo que começa no passado. Mas continua até hoje. Quem fala nesse poema está dizendo que papai, eu tenho te matado. No sentido que não é como se depois de mim, o patriarcado acabasse.

A opressão patriarcal que “Papai” trata é uma contra a qual sempre se está lutando e nem é claro que se poderia de fato superá-la. E nem é claro exatamente o que é essa opressão.

Para parafrasear o que Louis Armstrong disse sobre o jazz e o que Ned Block disse sobre a consciência, pense em alguém que manda a seguinte pergunta: o que é opressão patriarcal? Se você precisa perguntar, esse eu-lírico do “Papai” poderia responder, você nunca vai saber.

Quero dizer: para esse eu-lírico essa opressão obviamente existe e existe mais intensamente que tudo. Muito mais mesmo que a forma do bem do Sócrates. Mas essa opressão existe meio que por debaixo da pele. Quase que não dá pra ver, ouvir, cheirar, tocar ou degustar essa opressão.

Só que dá. E o eu-lírico tenta superar a opressão patriarcal. Nisso, ela usa uma linguagem alternativa. Alternativa no que ela viola ao menos uma norma implícita da época; a de que a palavra “papai” não deve ser associada a palavras, tais como “fascista” e “bastardo”.

Quero dizer: Plath usa um outro tipo de linguagem. Nisso ela também faz um elogio e/ou um apontar para um novo. Um novo que é novo inclusive em relação ao novo do Baudelaire. Porque o novo da Plath é esse de um mundo onde não haveria mais opressão patriarcal. Baudelaire nem fala sobre isso. Essa não é a luta dele. A luta dele é contra o spleen e o tédio.

Agora imagine um poema que foi escrito meio que hoje. Ele tem um eu-lírico com as mesmas características do de “Papai”. Nisso, esse eu-lírico não é alternativo em relação a esse eu-lírico criado pela Plath há quase 60 anos.

Imagine que a linguagem desse poema também usa mais ou menos os mesmos recursos da Plath. Tipo ela associa “macho” a “filho da puta opressor”. Nisso, a linguagem desse poema também não é alternativa em relação à linguagem da Plath.

Também imagine que o novo que esse poema “imaginário” elogia e/ou aponta é esse de um mundo pós-opressão patriarcal. De modo que o novo desse poema imaginário é velho em relação ao novo do poema da Plath.

Você já não leu meio que hoje um poema modernista fracassado feito esse “imaginário” aí?

Mas alto lá, anão! Não estou dizendo o que é obviamente falso: que Sylvia Plath é mais repetida do que outros modernistas famosos. Na verdade, ela importa para mim. Daí, queria falar sobre ela. Daí, nisso queria também ilustrar a poesia modernista mais ainda.

Mas vários outros modernistas são repetidos o tempo todo hoje.

Quero dizer: você também não leu hoje um poema que repete Baudelaire? Ou um outro que repete Bukowski? Ou um outro que repete Rimbaud, Mallarmé, Apollinaire, Bandeira, E.E. Cummings, Ponge, Drummond, Cabral, Celan, Ginsberg, os irmãos Campos?

Não acho que banda interessante toque poesia de reconhecimento ou poesia modernista fracassada. Acho que banda interessante toca outra coisa. Vou dizer o quê na próxima coluna.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). No momento, trabalha no que espera tornar seu novo livro de poemas, “F.G.A.M”. Ele também trabalha como professor de filosofia da Universidade de Miami e na sua dissertação de doutorado sobre metafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras.

Leia os artigos anteriores do Felipe AQUI.

felipegustavomoreira@yahoo.com.br | Site pessoal.

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. FV 2 de julho de 2018 em 15:57

    A visão da arte como tal cujo objetivo é o simples “chocar” só não me parece mais simplista que o da “originalidade” acima de tudo. Ora, o modernista fracassado é justo o que tenta ser original a todo custo, a troco da vulgaridade e da cafonice, sem reconhecer toda uma tradição de séculos, que os verdadeiros modernistas, como Mallarmé, Rimbaud, Ezra Pound, James Joyce, etc, souberam aproveitar muito bem. A arte não é um templo, tampouco o artista um Jesus: não se destrói toda a tradição, para reconstruir uma nova em dias. A arte é como a ciência, como a filosofia, etc: como haveria de desenvolver Newton o cálculo se não houvesse antes lido Euclides? O artista deve se apoiar nos ombros de gigantes que o precederam, não rejeitá-los todos. A originalidade não é sumo Bem, a sofisticação é que o é. Homero foi copiado por Virgílio, Virgílio por Dante, por Camões, etc.

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