Subversa

Tantas vidas quanto ficções – Todos os dias são meus, de Ana Saragoça | Cláudia Capela Ferreira

Fotografia: Priscilla Kern


Sou fácil de definir.
Vi como um danado.

Alberto Caeiro

Todos os dias são meus, de Ana Saragoça, lançado em 2012 e recentemente reeditado pela Planeta Manuscrito, tem-nos sido apresentado como um romance de suspense ou um thriller criminal. Porém, o que menos há de relevar será a identidade do/a autor/a do crime, senão a do autor/a moral do mesmo, bem como a sarcástica ilustração da sociedade em tons satíricos, remetendo para uma crítica atualmente inabitual na literatura portuguesa. Trata-se dos relatos dos diversos habitantes de um prédio, referentes, pois, à vítima e, enviesadamente, a si mesmos, decorrentes do estado de mais absoluta solidão, instalando leituras sociais pertinentes. Da vítima do crime pouco se sabe, afinal.

De facto, sobre a personagem que amalgama os relatos em torno da sua existência sabemos o que aos outros parece e, sendo ela a registar a sua vida, sabemo-la múltipla, de cariz ficcionado, roçando a realidade, vislumbrada de fora, como um dos seus passatempos amplamente nos demonstra: acendendo as luzes de casa, a vítima – quer dos outros, quer de si, carrasco, portanto – instala-se fora a observar(-se), adivinhando(-se) sob a sombra das cortinas. Ora, este estado de excedência identitária ou, pelo contrário, da sua míngua, não é novo na literatura e nunca se dará por vencido. Exemplarmente, a autora, seguríssima no controle da informação (que bela contista será!), bem como na caraterização das personagens e no registo mínimo das pequenas perversidades a que a nossa indisposição para o outro nos lega, vai permutando as incidências emocionais, no típico registo intimista, azedo, com a saudação satírica da vida urbana, fazendo-a, de alguma forma, contrastar com a liberdade e aparente genuinidade campestre, recorrendo para isso à menção a Alberto Caeiro e ao topónimo rural Vila Nova da Baronia enquanto suposta apropriação de uma memória alheia por parte da personagem principal. Aqui, nem tudo é o que parece. O título e a citação com que fecha o texto, convidando o Mestre Caeiro a discorrer sobre biografia, permitindo a autoficção ou o silenciar da mesma “[…] a minha biografia […] Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra coisa todos os dias são meus” (apud Saragoça 2017: 108) – enformam um pendor ensaístico  que questiona a noção de identidade.  Essa dispersão identitária, ou esta ilusão de identidade, serve aqui o propósito de diluição, de demonstração efetiva da nulidade a que, de alguma forma, a vida em sociedade acaba por nos submeter, obrigando-nos aos rigores da imagem. Tudo parece, nada é, como, enfim, o fingimento autoral. E, de facto, a história de Ana Saragoça viabiliza a leitura dessa indefinível barreira entre o real e a ficção, dada a camaleónica possibilidade que as imprecisões da nossa biografia, afinal, permitem.

As personagens, seja a antiga porteira mais ou menos xenófoba e intriguista, seja o engenheiro narcísico e misógino, as crianças aburguesadas com tiques de abandono e aulas de etiqueta extracurriculares, os ucranianos que, como tudo no texto, afinal são outra coisa, o jovem quadro solitário e focused na estratégia empresarial, ou o professor, quase um anacoreta, desenham uma crítica à solidão, ao distanciamento, ao desinteresse quezilento, evidenciando as frustrações identitárias de cada um, as suas perspetivas; e bem se sabe que a perspetiva é fulcral, e a verdade, a verdade pode, enfim, ser um ato de fé. Assim sendo, tudo é nebuloso: o eu, o outro, a vítima e o carrasco, a biografia e a ficção dela. Uma das personagens com maior desenvoltura é, pois, a namorada do engenheiro, proporcionando-nos a egoísta visão de uma cínica, que poderá ser candidata à figura mais genuína e verdadeira. Retrato fiel da contemporaneidade?

De resto, aquela que se poderá apelidar de personagem principal resolve escrever-se ao invés, acatando um pretenso lugar de olvidável com que parece ter sido rotulada, “esquecível para quem se cruzava comigo” (Saragoça 2017: 22), o que raramente tem bons resultados. De uma forma geral, talvez possamos antever nesta personagem o mal das nossas, essa ficcionalidade a que hoje, na celebração da nossa individualidade, vamos sendo votados. Por outro lado, nunca somos o que nos pensamos, tão-pouco o que os outros pensam de nós ou, na mais canina variante, talvez meros ajustes precisamente àquilo que é esperado.

Assim, ensaiando(-se) (n)as histórias dos outros, num velho livro de Razão, do deve e do haver (e frise-se a ironia deste ato poético) ou na sua própria história – não é claro – a narradora central vai declamando solipsismos em que a primeira e a terceira pessoa se confundem: “É assim que ainda hoje a vejo: debruçada do seu próprio nome” (ibid. 24), “Olhar para as janelas das casas ensinou-me muito. Vi que as pessoas são realmente muito parecidas umas com as outras, e que eu sou gritantemente diferente.” (ibid. 35),  “Eu, que nunca fui de lugar nenhum, invejava aquele pertencer tanto a algum sítio […] Depois, à noite, no dormitório, tecia a minha vida inventada de menina alentejana […] Chego a ter pena da pobre empregada, a quem roubei o passado e a terra” (ibid. 43-45) e, finalizando, “Cada vez mais vejo a minha vida de fora, longe, lá muito longe” (ibid. 87) . Ora, mais tarde, a empregada do professor há de fazer menção a esta história, a este lugar de pertença, Vila Nova da Baronia. A identidade ficciona-se ou cisa-se, elide-se, vê-se de fora, decompõe-se? Trata-se de um ato de fingidor, de intelectualização do sentimento precário e imediatista? Por outro lado, e metaliterariamente, observamos o exercício de usurpação de histórias, matricial para a composição ficcional. Todos os dias são meus elucida-nos, enfim, sobre a graça da invenção, de diluimento de barreiras e acréscimo de horizontes, no que de entusiasmante e arriscado essa instauração faz fender no âmago de quem cria, não se vá perder a mão. Se a irónica vítima a perde nesta obra? Não me parece. Nem ela, nem a autora, na crítica à moral burguesa falha em que, independentemente das classes sociais, demarcadíssimas, afinal, todos parecem decair. A promiscuidade – não obedecendo aqui a contornos moralistas – revalida a noção de descrédito e mecanicidade, ainda um certo arrivismo, a desresponsabilização dos pais, a vacuidade da educação das crianças, a fatuidade e inocuidade de algumas representações artísticas, os agentes da arte, os tablóides, a solidão da terceira idade (e da infantil, e da idade adulta) e ainda a xenofobia são leituras a que o texto se predispõe.

Este processo satírico, com a identidade enquanto pretexto sinuoso que o ampara, assenta na comicidade. No entanto, é preciso que se veja: o cómico é exercício ferino, decorre quase sempre do trágico ou, pelo menos, do grotesco, usado aqui como estratégia subliminar, diluindo os excessos do fatídico. Não se trata simplesmente de um jogo, trata-se de um nome, de um nome que se quer nulo, pois tudo é já indiferente e incapaz de verdadeira sintonia interpessoal. Esta leitura de apagamento individual não deixa de ser universalizante, oferecendo crédito à crítica da atualidade. O jovem quadro, por exemplo, a par do sujeito que se (re)escreve, apresenta-se com muita clarividência na sua mais desamparada anulação: “voltei a olhar-me no espelho: vi um desgraçado igual a mil outros desgraçados que nos enchem as caixas de correio de publicidade” (ibid. 99), e, ainda tão premente: “Eu sei que nunca fui tão feliz como desde que deixei todas as decisões ao critério de outra pessoa” (ibid. 98). Nestas condições de soberania do outro, de submissão, da mais pura anedonia e desinteresse, de anulação ou renúncia abnegada de si próprio, que sinalização ética? Por outro lado, que resultados celebratórios de uma qualquer envergonhada vaidade pela situação de reconhecimento, independentemente de positivo ou negativo, por parte da sociedade? A identidade e a manifestação da mesma aos olhares desabituados dos outros é perigosa.

São, assim, legíveis o carácter moderno e pós-moderno em diálogo. O egocentrismo, o individualismo, a mentalidade funcional e a economia como aglutinadora de relações por oposição às ligações de feição social e emocional associados ao moderno são hiperbolizados na passagem àquilo que se aprouve dilucidar de pós-moderno, e tudo se rendeu à velocidade e à perceção de uma certa perda do real (sublinhe-se precisamente a menção à efemeridade da escrita digital, sanando o que acabou de se digitar), até a história, de acordo com J. Baudrilliard, deixa de ser real (Cf. J. Baudrilliard, Las estrategias fatales). Da informação ao excesso dela, da tecnologia à evasão que a mesma inflete, dificilmente se distingue o relevante do acessório, vítimas que somos de um certo niilismo, com o fantasma de Nietzsche pesando sobre as nossas cabeças, com o diluimento da história e esse eterno retorno amalgamado. Neste sentido, a memória, enquanto fator estabilizador, acudiria à criação de um sentido, mas, afeto à irrazoabilidade da multiplicação ficcional, qual seria o discernível? Se a oferenda da estória salva, também cerceia a identidade, quando levada até às últimas consequências, na tentativa de se retomar a identidade perdida à nascença. Assim, essa des-situação (cf. as constantes menções às películas fílmicas enquanto sensação) pode criar identidades desprovidas de ética, sem capacidade crítica (“Arrependimento? De quê? De ter cumprido uma ordem?” (ibid. 102), numa espécie de dessacralização do real, uma libertação total pela qual o indivíduo paga um preço. A situação assim representada é legível, à sua medida própria, em cada uma das personagens, quer de forma sentimental, narcísica, cínica ou desinteressada, de que a(s) vítima(s) são os mais ilustrativos exemplários. Uma criando, outro anulando, na aceitação do desígnio heideggeriano de ser para a morte. Neste contexto, a fragmentação identitária afeta ao carácter homogéneo, capitalista e globalizante do contemporâneo é graduada com a referência a Caeiro, nessa mescla das noções de identidade e alteridade.

A par do que nos sugere a narradora, é ler. E seremos recompensados.


Referência:

Saragoça, Ana (2017): Todos os dias são meus. Lisboa: Planeta Manuscrito.

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