Subversa

Traduzindo Shelley | S.Ü (Nova Iguaçu, RJ, Brasil)

Fotografia: acervo das editoras.


Há alguns anos ouvi de um expatriado que seu principal empecilho como estrangeiro era o idioma. Para ele, tinha sido mais fácil conseguir o visto e se instalar no país estranho do que aprender a língua nativa. Faz sentido. Há quem reclame das mais de vinte e quatro horas de voo do Brasil até o Japão, sem perceber que esse tempo não representa nem 10% do necessário para aprender japonês. E seja qual for a nacionalidade do turista, chegando lá, usará o inglês para se comunicar, acreditando equivocadamente que este idioma, sim, ele domina.
Talvez se deva também a esse equívoco a razão por que decidi traduzir uma poesia de Shelley. Há, todavia, ressalvas: tratava-se de uma poesia apenas e não de um livro, eu publicaria no meu blog pessoal e provavelmente ninguém ficaria sabendo, ou seja, uma falha não significaria mais do que uma minúscula nódoa para a qual uma lamentação solitária bastaria.
A poesia se chamava Time, “Tempo”. Apenas dez versos, com rimas da primeira até a última frase. Rimas! Minha primeira reação como tradutor foi pensar nos sinônimos: eles salvarão de uma só vez o sentido e a palavra! Nem sempre funciona, mas esperança em excesso sempre foi uma característica dos ocidentais e comigo não seria diferente. Mas em seguida, como era de se esperar, a decepção: que sentido? Eu já havia traduzido Apreensões, de Sylvia Plath, entendendo sem dificuldades que as paredes coloridas das quais ela falava eram os períodos do dia (branco, cinza, vermelho e preto): eu me senti um deus. Bastava, então, apreender o significado geral e tudo seria mais fácil… Mas depois lembrei que havia traduzido outra poesia de Plath, chamada Ariel, julgando todo o tempo tratar-se de uma menina com sua babá negra, até descobrir por intermédio de uma nota de Ted Hughes que Ariel, na verdade, era uma égua. Eu me senti uma farsa!
Decidi insistir, começando pelo mais simples, a releitura. Na poesia, Shelley fala do mar, do Sea!, com exclamação. Adoro exclamações, mesmo quando terminam em rimas. Ele compara as ondas do mar aos anos, para depois comparar sua água salobra às lágrimas dos humanos!, com exclamação: “years”, “human tears!”. Com essas primeiríssimas frases, a esperança em excesso regressava. E provavelmente, supus, o espírito de Shelley não se contrariaria com a discreta inversão de “lágrimas humanas!” para “lágrimas dos humanos!” e, assim, quase sem alterações, estaria pronta a rima inicial: anos / lágrimas dos humanos! Eu já quase me sentia novamente um deus, quando recordei que ainda faltavam as outras oito rimas.
Para os tradutores de ocasião como eu, uma técnica improvisada que funcione já serve como porto seguro. Então, continuei a releitura. Shelley segue falando do mar, da oscilante invasão da água na costa, que inunda e esvazia, vomitando destroços de naufrágios… Ora, a memória é sem dúvida uma inimiga da objetividade… Dei-me conta, sem querer, de que essas imagens não me eram estranhas e, desafortunadamente, pressenti que eu enguiçaria outra vez. Depois de alguma pesquisa deparei-me com a resposta mais óbvia: Homero. A nau de Odisseu passará pelo estreito de Cila e ficará cara a cara com a “divina e assombrosa Caríbdis, que sorve negra água; três vezes esguicha ao dia, três vezes sorve”. Seriam esses os destroços de Shelley? “Flow” seria o esguicho e “ebb” o sorvo? Se fosse, eu teria que fazer rimar esguicho com o “woe” da frase anterior! Meia dúzia de pontos de exclamação explodiram dentro da minha cabeça e eu me sentia um turista brasileiro falando inglês no Japão.
Ora, raciocinei, mesmo um tradutor de ocasião deve tomar decisões importantes. Lembrei-me de minha mãe batendo em meu ombro com sua mão de panda, dizendo, cheia de exclamações: “você ainda vai apanhar muito da vida, seu arrogante!”. Assim, antes de levar a tal surra, resolvi fazer sair a tradução nem que fosse a marteladas.
A égua Ariel já havia me ensinado que deduzir a origem da inspiração não leva o tradutor a lugar nenhum. Esqueci-me, por hora, de Caríbdis e cometi uma arrogância que nem a mãe de minha mãe perdoaria: inverti “ebb and flow” por “flow and ebb”. Estava pronta a segunda rima. “As águas de pesar penetrante” se encaixaram com perfeição em “torrente e vazante” e, pelo menos até hoje, o espírito de Shelley não reclamou.
Com metade da empreitada resolvida, a esperança em excesso transbordou de vez. Mas quando reli a rima tripla que vinha em seguida, tive a impressão de ver os espíritos de Shelley e de minha mãe de mãos dadas, rindo de mim … A poesia fechava com “for more, shore e in storm”. “Storm”? Mais essa, uma rima intermediária, a pior de todas! Era o momento ideal para novas arrogâncias, não muito diferentes da anterior. Como o “for more” do verso se iniciava com “yet”, tratei de usar “porém” como base; o mar feroz — ou a Caríbdis de Homero —, farto de rapinar, bramindo “por mais porém”… Enquanto o espírito de Shelley lia mudo a segunda inversão, o de minha mãe, que não sabia ler, olhava e torcia a cara. Prossegui todo valente, o “shore” do segundo verso não me venceria! O mar vomita os destroços na “inóspita shore” ou “costa inóspita”, ou “hospitaleira a ninguém”. Pronto. Os espíritos de Shelley, de minha mãe e também o de Caríbdis já não tinham mais de quem rir. A última grande digitada seria a “tempestade”, a “storm”. Ora, uma mera meia rima não deteria minha esperança em excesso nem minha arrogância. Reli com displicência (a melhor forma de leitura): “o mar é traiçoeiro na calma e terrível na tempestade”… Mais uma inversão? Por que não? Seria a última, mas não a derradeira. Que tal, pensei, “na tempestade, terrível”? Terrível, ou inclemente — os sinônimos têm de servir para alguma coisa! Eis minha trinca: “porém, ninguém e inclemente”, com direito até a rima intermediária; um adjetivo apenas e nem a égua Ariel me amedrontava mais.
O “the end” se avizinhava. O “Mar” inicial, com sua belíssima exclamação, se repetia na última frase acompanhado de uma interrogação. E meu Shelley se perguntaria assim: “Sobre ti quem haverá de se elevar, Incomensurável Mar?”. Neste ponto de minha arrogância, a rima já se abria para mim fácil e sem culpas, como se fizéssemos amor. Eu me sentia como Odisseu em sua nau minúscula enfrentando Caríbdis, sereno, imbatível, saindo quase morto do outro lado do estreito de Cila. Vivo!


S. Ü | Poeta, tradutor, ensaísta e ateu.
Blog: sodinesodine.blogspot.com

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