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Um futurista à procura de si mesmo | Autolusografias

José de Almada Negreiros foi o autor modernista português que mais se aproximou do espírito de vanguarda, não apenas pela sua postura iconoclasta, mas igualmente pelo experimentalismo poético que caracteriza quer o seu corpus literário quer as suas telas. Exemplos de tal postura plasmam-se em textos como K4 O QUADRADO AZUL ou nos manifestos, quer no “Manifesto Anti-Dantas e por Extenso”, quer no “Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX”.

Nestes textos constatam-se duas finalidades bem delineáveis. A primeira é direcionada para uma forte e clara oposição a um modelo literário, a um modo criativo, que se considera totalmente ultrapassado. Júlio Dantas é o epicentro, ou seja, o protagonista dessa sensibilidade literária novecentista à qual Almada reage. No entanto, o fundamental está na segunda parte do seu projeto, que consiste numa abertura que não é somente literária, mas eminentemente cultural à Europa, ao vanguardismo e ao experimentalismo em oposição ao conceito de escola. A arte, para os de Orpheu, sai do espetro universitário, isto é, académico, e identifica-se com a própria vida, com o próprio ser. Nessa medida, Almada Negreiros não deverá, então, ser considerado meramente como uma figura de agitação ou de inconformismo, pois ele é sempre claro na direção a seguir, a qual começa com o próprio “Ultimatum Futurista” publicado em 1919, mas que vai continuar em textos como a “Histoire du Portugal par coeur”, nos cadernos “Sudoeste” ou no ensaio “Direção Única”.

Portanto, se, por um lado, Almada crítica e quebra com uma tradição que considera desatualizada, ele possui uma faceta, uma preocupação até, visivelmente construtiva. Aliás, a crítica almadiana (desde Duílio Colombini passando por Celina Silva) já se fez ouvir quanto à dimensão ética e ontológica da textualidade do autor de A Engomadeira.

Ao longo de todo o seu corpus literário, existem inegáveis marcas da presença de uma necessidade de procura de si mesmo, do encontro com a sua própria pessoa. Ora, essa demanda pelo autoconhecimento plasma-se na personagem de Luís Antunes no romance Nome de Guerra ou em textos como o poema “Caçador”, a curta narrativa “O homem que se procura” ou “A minha sombra segue-me”: “A minha sombra segue-me / e eu vou na minha sombra / e não em mim. (…) / Estou sempre às portas da vida! / estou sempre às portas de mim!”

Regista-se, assim, o abandonar de uma certa excentricidade para abraçar, posteriormente, uma postura lúcida e serena, que só pode resultar na harmonia de se ter encontrado o que se andava à procura. O momento fundamental dessa mudança de postura é, certamente, a Invenção do Dia Claro, texto que relata uma viagem que mais não pode ser do que de volta a si próprio. O redimensionamento da sua obra é fundamental a partir da escrita deste texto: não se tratam apenas de alterações a nível temático, mas também discursivo. O corpus literário de José de Almada Negreiros apresenta um processo evolutivo desde o experimentalismo vanguardista até a maturidade enredado numa demanda de autodescoberta no seio do poético.


Referências:

Obra Literária de José de Almada Negreiros/3, Ficções, edição de Fernando Cabral Martins, Luís Manuel Gaspar e Mariana Pinto dos Santos, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002.

Obra Literária de José de Almada Negreiros/2, Nome de Guerra, edição de Fernando Cabral Martins, Luís Manuel Gaspar e Mariana Pinto dos Santos, Lisboa, Assírio & Alvim, 2ª edição, 2004.

Obra Literária de José de Almada Negreiros/1, Poemas, edição de Fernando Cabral Martins, Luís Manuel Gaspar e Mariana Pinto dos Santos, Lisboa, Assírio & Alvim, 2ª edição, 2005.

Obra Literária de Almada Negreiros/5, Manifestos e Conferências, edição de Fernando Cabral Martins, Sara Afonso Ferreira, Luís Manuel Gaspar e Mariana Pinto dos Santos, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006.

COLOMBINI, Duílio, Almada Negreiros, São Paulo, Universidade de S. Paulo, 1978.

SILVA, Celina, Almada Negreiros, A busca de uma poética da ingenuidade ou a (re)invenção da utopia, Porto, Fundação Engenheiro António de Almeida, 1994.


ZÉLIA MOREIRA (Porto, 1990) é licenciada em Língua, Literatura e Cultura Inglesas e mestre em Literatura Comparada. Lê, escreve e ensina. Publica na Subversa ao sétimo dia de cada mês. | ZELIAPGOMES@GMAIL.COM

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