Subversa

Um português à beira mar | Autolusografias

“… o mar com fim será grego ou romano:

O mar sem fim é português.”

Fernando Pessoa in Mensagem

 

Ilustração Francisco Ben

O comboio tinha acabado de partir e já se sentia o cheiro a mar. A linha, que fica a dez minutos do areal, deixa para trás imensos passageiros, alguns, mais jovens, com pranchas e com o cabelo queimado pelo sol, outros turistas de pele pálida e mochila e ainda outros, apressados, desejosos de chegar ao seu destino. O caminho até ao mar é feito por ruas de “casas de século”, como diziam as pessoas mais velhas, descoloridas pelo ar do mar. As elegantes palmeiras vindas de países do sul abanavam as copas ao som da nortada que punha o cabelo das mulheres num desalinho. As casas da marginal já não eram clássicas moradias, mas autênticas varandas para um imenso areal que, ainda assim, tem vindo a diminuir com o passar dos tempos. O mar, esse, continua a empurrar-se com uma força inabalável até à costa, com a monotonia e o arremesso de sempre, indiferente à passagem do tempo. Mar… A linha do horizonte pode representar o fim, o princípio, o desconhecido, enfim, a aventura.

Imortalizado em poemas, desde a épica camoniana aos poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen, o mar é considerado uma fonte de inspiração, criador de mitos ou fábrica de sonhos. Parece uma cisma lusa viver virado para o mar e dar-lhe tamanha significação, pois a vocação marítima de um povo do sul da Europa que nasce a abraçar o mar ultrapassa o âmbito pragmático: no imaginário português fixou-se a ideia de abraçar o infinito, de ser maior do que a própria vida, de se escapar da lei da morte. Para alguns, o mar encerra uma mística qualquer, ser superior detentor de um poder sobrenatural que tanto deu a glória como ceifou uma vida, espécie de magma incandescente. Além disso, o mar encerra também uma fluidez que lhe dá simplicidade e universalidade, pois é junto dele todos são aceites por igual; trata-se de uma espécie de ser fraterno que convida e encanta.

Para a Subversa, o significado de mar talvez seja ponte, pois, para além de ser o que nos separa, foi o que no passado nos uniu.


ZÉLIA MOREIRA (Porto, 1990) é licenciada em Língua, Literatura e Cultura Inglesas e mestre em Literatura Comparada. Lê, escreve e ensina. Publica na Subversa ao sétimo dia de cada mês. | ZELIAPGOMES@GMAIL.COM

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