Subversa

Uma gargalhada como ação contra a morte | Cláudia Capela Ferreira


Fotografia: acervo da revista

A gargalhada de Augusto Reis, romance editado em maio de 2018 pela Porto Editora, envereda pela difícil particularização da linguagem. O que é? Onde se encontra?, parece perguntar. De facto, Jacinto Lucas Pires move-se nesse cruzamento de artérias e intermedialidades, questionando a palavra, a voz, a imagem, pelo que as referências e diluimentos entre as vastas persecuções interdisciplinares, além de configurarem uma proposta de vulgarização dos supostos atritos, estabelecem um harmonioso ponto de partida para a afirmação da perceção e significação do mundo, independentemente da forma da sua representação. Neste sentido, o real e a ficção tendem a transir-se, numa necessidade de narrar, de contar, de fazer ver, pelo que a metaficção ou a metalinguagem debrua o romance diametralmente, buscando uma forma de dizer e fazer imperar uma realidade tão só existente já no princípio imaginativo das personagens. Não por acaso, as três personagens centrais são demiurgas: dois poetas e uma cineasta. Se os dois primeiros, Augusto Reis, cuja gargalhada nos dá a impressão de ecoar, e Djalma dos Santos, se dedicam à perceção minuciosa, ou pelo menos correspondência fantasmal do fenómeno vivenciado (e confira-se o nome do poema que, de resto, parece enformar o princípio poético das suas obras e – podemos dizê-lo – da que lemos: «Poema em cima da hora»), Sofia Bessa, por sua vez, cruza documentários e ficção, cujo entremeio é difícil de desfasar. O princípio do real mescla-se com o ficcional, outorgado o fenómeno imaginativo. De facto, as personagens esforçam-se por instaurar um processo autonomizado de interrogação das suas poéticas, ou ars poetica, numa pesquisa sobre a linguagem: como começa um poema, como começa um filme – como começam os começos?, perguntaria eu, as primícias da lucidez e daquela dolorosa, infausta loucura?, que também a há, lesta na ação, e como resistir-lhe? – onde se encontra o/a autor/a, a ficção, a personagem, a voz narradora, e como sucubizar essa impressão externa?

A narração toma início com o fim da ditadura, inaugurando um espaço tensional para Augusto Reis, professor e administrador bancário, conivente com o regime, privilegiado, pondo-se, enfim, em fuga, numa série de pequenos alvoroços mais ou menos patéticos, envolvendo fantasias identitárias e joias de família. Todos os inícios – seja da democracia, no caso da ficção, seja da ditadura – são partos difíceis, mas mais difíceis se nos tornam quando lhes antecipamos já tão nefasta dificuldade: a opressão, a censura, o despotismo, a indignidade e violência a que estes nascimentos difíceis votam a diferença. Por essa razão, é fulcral avaliar da segurança desses partos, não vão os nascituros, ainda cegos, errar a vida e condenar-se, sisificamente, à nascença. Djalma dos Santos é filho de mãe cabo-verdiana e de pai angolano desaparecido, de quem herda o nome vazio, e vive na Amadora, resgatando do lixo o poema já mencionado acima. Sofia Bessa prepara um documentário sobre o primeiro, depois de experimentar a tela em branco e as suas próprias ânsias emocionais. O cruzamento de todas as personagens dá-se, portanto, a nível metalinguístico, estabelecendo um diálogo sobre a natureza da ficção e da realidade e da multiplicidade de eus construtores e mundos habitáveis. Interessa, de facto, a aparição, o assalto do real; a mulher, como tema, por exemplo, no caso dos dois poetas, é quase uma imagem sobreposta no que de imediato e fulgurante faz imperar sobre o génio criativo de ambos. No caso do primeiro, a aparição seda-o e cega-o momentaneamente, limitado a uma imagem; no caso do segundo, a perceção do real impõe-se pelo surgimento de um heterónimo, o tio Oto (um outro?), nos momentos mais singulares, numa disposição de desdobramento, que se torna manifestamente necessário colmatar pela  absorção para lidar com a feitura do poema e com a identidade própria.

Mas se ambos são poetas, o que talvez importa, apesar disso, é captar um instante e a imagem desse instante – a musicalidade, a oscilação da voz, como se a própria sugestão do real fosse um pictograma ficcionado. A transgressão (se lhe quisermos chamar, de má vontade, assim) é contínua, e as descrições situam-se no âmbito do tecido cinematográfico, especialmente quando Sara intervém, criando, inclusivamente, momentos de reserva na distinção da figura enquanto autora-narradora e personagem. À janela, como quem olha para fora e simultaneamente para dentro, Sara é, talvez, a personagem mais empenhada com a realidade, embora tenha noção da dificuldade extrema de adentrar a pele dos outros sem que nesse exercício recaia para o lugar dúbio e cabotino da representação moralizante. “Espreitar de cima” (Lucas Pires 2018) interpõe a noção de narrador, de perspetiva, e, não raras vezes, as personagens se sentem fora do corpo ou vigiadas por uma estranha sombra que anuncia, alguém cuja voz traduz coisa que inexiste, enfim, e a que qualquer ficcionista, certo da existência dessa mesma nulidade, procura dar forma. A crítica e os críticos das estrelinhas nos jornais, a perceção da arte, as minorias, num plano social, étnico e de género, são plano de fundo, numa lembrança fugaz mas mais ou menos efetiva da atualidade.

A história de Augusto, Djalma e Sara valem, portanto, por esse diálogo interarte, pela discussão da intermedialidade e representação, objeto ficcional que irradia, mais do que teorias, questões afetas à ordem fenomenológica do real, à captação de um momento epifânico, no que de súbito e significativo traduz. A suspensão do pensamento e a exaltação do ato concentracionário na natureza essencial do objeto do olhar. Olhar objetivista em deslumbramento, anunciando o étonnement de Merleau-Ponty. Nesse sentido, talvez o primado seja o da imagem, num exercício de transbordamento, ainda que a palavra surja com propósito de ligação. James A. W. Heffernan refere-se ao papel crucial da linguagem na experiência da arte. No fundo, anseia-se uma linguagem capaz de traduzir o indivíduo. O sonho e a realidade, o eu e o outro, o real e o ficcionado interligam-se, configurando o estado de fora de, de fingimento, porventura, de “está[r] a dormir e, não sabe[r] como, passa[r] para fora de si e é[ser] a figura que a olha de cima” (Lucas Pires 2018), como um demiurgo, ou ao jeito de Pasolini: se for um sonho, serve para realizar a realidade. Assim sendo, não se estranha a oralidade e o coloquialismo do texto, desprovido de lírica, mas não de pontual lirismo: “nos sonhos é tudo como no cinema mas com um bocado de literatura” (Lucas Pires 2018).

A pluralidade medial no romance é fundamental, e a invenção e cruzamento de diversos sistemas agigantam a questão metalinguística, na referência à filmografia, ensaísmo e bibliotecas ficcionados. No entanto, todos apontam para a argumentação de uma picturacy (Heffernan), a relação da imagem com a palavra, escrita ou dita, arte total, híbrida (teatro ou cinema?). Esta interdependência, a que talvez nunca se possa escapar, propõe o reconhecimento da representação verbal e visual do real, pelo que as constantes, talvez excessivas, comparações do autor no texto pretendam rasurar esse lugar do indefinido, ou do aquém verbal implícito na feitura de um romance. Talvez seja a vida numa metáfora, ao jeito de George Lakoff e Mark Johnson, na estruturação do dentro e fora de nós.

E, atendendo à noção de metaphors we live by, talvez não seja de todo improdutivo atentar nesta gargalhada de Augusto Reis e reservar também para nós esse desafio à morte, e quiçá à vida, rindo sempre, se possível com um covilhete ou dois, e, sobretudo, humanamente afoitos, certos de que fascistas Não passarão!


Lucas Pires, Jacinto (2018): A gargalhada de Augusto Reis. Lisboa: Porto Editora.

Heffernan, James A. W. (2006): Cultivating Picturacy. Visual Art and Verbal Interventions. Baylor University Press.

Husserl, Edmund (2000): A ideia da Fenomenologia. Trad. de Artur Morão. Lisboa: Edições 70.

Lakoff, George e Johnson, Mark (2003): Metaphors we live by. Chicago: University Chicago Press.


CLÁUDIA CAPELA FERREIRA é trasmontana por nascimento e europeísta por convicção. Doutorou-se em Estudos Literários Portugueses com uma tese sobre a poética torguiana. Escreve sobre literatura e cinema.

 

 

 

 

 

 

 

 

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