Subversa

Uma manhã inútil me encontra no deserto | Ladrão de Chapéus

Ilustração de Marilia Moser


Uma manhã inútil me encontra no deserto
E nas calçadas da cidade a chuva cai gentilmente.
Estou nu, meus olhos buscam profundamente o oeste,
Impávido e imóvel, indócil ante a solidão do universo;
Estou só, meus amigos partiram em longas jornadas…
Meus amores morreram como flores abertas.

A manhã me encontra árido e inútil, coberto de pó.
Minha alma é vasta e plana: um eco vazio no deserto.
Busco outra vez o oeste, pois que lá, eu sei, repousa o fim,
Um epílogo a todos e um descanso a mais para o sol.
Da janela do mundo a umidade do tempo seca-me a vida…
Gosto do gosto da chuva e das nuvens caindo sobre o silêncio.

Inutilmente levo o deserto em mim, domínio de todo vazio.
Meu deserto é verde como os campos que correm para o sul,
E nada mais, verde ou azul, frio ou molhado, na janela do mundo.
Estou nu, sou pobre e ouço as mesmas canções da infância
Um grito irrompe a amplidão desenhada no alto do céu,
Um pranto nascido no íntimo: da alma, da flor, do trovão.

Estou só, a solidão é o sal no oceano… Já não busco o oeste
E a chuva suavemente suspende seu canto de prata!
Com o deserto nas mãos procuro um caminho de volta,
Um destino que traga e não leve, que empreste e não negue
Um pouco de tempo a mim, às flores, ao fim, ao incerto!


BOMQUEIROZ é de Uruguaiana (RS, Brasil) e nasceu embaixo de uma bergamoteira. | BOMQUEIROZ@GMAIL.COM | ler MAIS TEXTOS do autor.

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