Subversa

Ver o que parece perdido em nós: os textos de B. Kucinski | Francieli Borges [o que o texto faz]

Fotografia: acervo da revista


Vejo uma tarde de chuva como a de hoje. Naquela época, eu passava longos períodos – ou pelo menos assim pareciam – na casa dos meus familiares. Vez por outra, minha avó chamava para que eu a acompanhasse em algumas caminhadas. Adorava esses momentos, em parte pela simples e completa companhia que ela me proporcionava, também porque sempre era uma aventura deslizar por aquelas estradas de chão por onde espreitavam toda sorte de surpresas, incluindo os sustos inevitáveis que me causavam os cães enormes dos vizinhos, além de uma incontável variedade de insetos coloridos que existiam nos campos.

A estrada, barrenta e cheia de poças, se arrastava entre casas de madeira muito coloridas, e tinha fim no pátio de outra ponta da minha árvore genealógica, minha bisavó. Nesse dia, recolhemos várias mudas de flores pelo caminho, possivelmente um hábito que se estende por toda a família. Recordo, algo vago, de um arbusto lindo que caía sob uma árvore, suas flores eram muito alvas e tinham um forte aroma do que hoje me parecem orquídeas. Desse passeio, também estão somados o cheiro da mata e terra úmidas, sensações que me acompanham há quase vinte anos.

Quando chegamos, aquela senhorinha tão pálida e frágil que nos recebeu parecia em nada com a avó severa que minha mãe e tias pintaram em algumas histórias. Também o perfume que ela usava era suave, algo que percebi porque ficávamos muito perto para que conseguíssemos conversar, já que naquela altura ela tinha um elevado grau de surdez. Lembro de ela ter feito muitas perguntas, parecia genuinamente interessada que eu ficasse menos tímida, exatamente como uma visita importante – senti atribuídas a mim qualidades muito vivas, dignas de muito interesse. Permanecemos quase todo o tempo na cozinha, só no fim do dia fomos à varanda, repleta de roseiras impecavelmente distribuídas. Recordo também dos sofás, elegantes, dispostos na pequena sala. Acredito que haja na memória de todos tantas dessas imagens aparentemente desconexas, cenas que influenciam nosso cotidiano de maneiras diversas e insuspeitadas.

Algo, no entanto, pareceu excessivo naquela ocasião. Minha bisavó repetia que eu era uma menina bonita, entristeci ao sentir o choque daquelas palavras que figuravam no manual dos anfitriões idosos. Era possível que outra vez tudo não passasse de um protocolo. De todo modo, hoje gosto de pensar que ela tenha ficado à vontade para demonstrar esse afeto para mim, por extensão para minha avó, ainda que na bajulação pudesse haver um resquício de vingança contra as crianças de antigamente.

Minha bisavó morreu em 2007 – soube através de um bilhete escrito a punho pela minha mãe, encontrado em um móvel da sala, em que ela dizia ter ido às pressas ao velório. Devia ser uma terça-feira, seu dia de folga, para que ela viajasse assim tão prontamente. Fiquei entristecida que ela não tivesse considerado que fossemos juntas, que também para mim a ocasião era importante. Em parte, não posso culpa-la, por que minha mãe adivinharia que eu, a filha, uma adolescente aborrecida e tensa com o vestibular, ainda por cima insistindo em esboçar contorno a um recente e irritante ateísmo, estivesse disposta à viagem e àquela solenidade? Desculpados e nos desculpando a todos, é bom que a memória que guarda a última imagem de minha bisavó seja a de uma senhorinha simpática, com perfume de flores.

Todos sabemos contar histórias e somos nossa principal fonte, na experiência e no desejo. Nos unimos através disso, de modo que nos tornamos cúmplices, amigos até. Temos punhados de coisas em comum e ao mesmo tempo o outro é portador de fatos que me esforço em imaginar. Bernardo Kucinski, em Imigrantes e Mascates, vê, na abertura de seu livro, a mãe picando bananas sobre um tacho. “Atrás dela há uma janela, mas o lugar é escuro”. O narrador é uma criança vivendo situações de um momento histórico muito preciso, mas ao mesmo tempo, existem preocupações semelhantes a tantos meninos de geografias e épocas diversas. Há, no livro, o esforço em recuperar a memória do pai, da mãe, da parte da família que sobreviveu ao Nazismo – judeus tentando se estabelecer no Brasil, suportar a memória, suportar o próprio Brasil cuja ditadura civil-militar anos mais tarde mataria a irmã do autor. E tudo isso dito em um livro voltado ao público jovem.

Com todas as idades percebemos o mundo que nos rodeia, mas é curioso que justamente nos nossos primeiros anos de vida, talvez nos momentos de maior exercício da nossa atenção, nossas angústias são negligenciadas, os fatos nos são escondidos, nossas curiosidades pouco consideradas. É que a vida às vezes é inverossímil, violentíssima. Foi necessário procurar no passado inúmeras impressões para que eu perdesse a primeira resistência de presentear a um pré-adolescente hipotético esse livro ilustrado, com fotografias, com história, com reflexões políticas desenroladas de maneira tão natural. Quanto nos falta para censurar livros densos, tão pouco distanciados das escolas francamente conservadoras a que nos opomos? É que nos acostumamos a pensar, a dizer, a ler baboseiras. Kucinski nos apresenta, sempre, a inteligência. Com ela somos capazes de nos narrar, de compreender as outras pessoas, de antecipar alegrias e tristezas, de procurar referências que se perdem na vida que levamos, ou pior ainda, dentro de nós mesmos.


*Bernardo Kucincki, ex-professor da Universidade de São Paulo, é escritor e jornalista. Entre seus textos ficcionais de maior repercussão está K.:Relato de uma busca, romance sobre o entorno envolvendo um jovem casal que desaparece durante a ditadura brasileira. Recentemente o autor publicou Pretérito Imperfeito, livro que debate a questão da dependência e da paternidade.


FRANCIELI BORGES | doutoranda em Estudos Literários na Universidade Federal de Santa Maria, onde desenvolve o trabalho sobre os romances de Graciliano Ramos e a arte gráfica de Tomás Santa Rosa. | francielidborges@gmail.com

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367