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Comentários sobre o livro Teatrauma, de Bruno Candéas | Alexandra Vieira de Almeida


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O novo livro de poemas de Bruno Candéas, Teatrauma (Penalux, 2018), tem o poder da desestabilização, causando um tremor no leitor ao escancarar as feridas de nossa sociedade, seus traumas de espanto e morte. Dramatizando o caos social, tal poeta tem a maestria em nos revelar as escavações da realidade. Cruel, divertido, trágico, despojado, sua poesia se caracteriza pelo jogo com as palavras, lembrando-nos do genial Paulo Leminski. Teatrauma nos leva ao afogamento nas palavras, um afundar-nos no verbo pleno e movediço das sintaxes sociais.

Bruno Candéas através de aproveitamentos com as palavras, criando neologismos, utilizando a poesia concreta e imagética, nos mostra os desdobramentos das letras, com fragmentações, expansões e descobrimentos de uma nova sintaxe, feita de beleza e força. Quanto poder de imaginação encontramos nos seus versos teatrais que descortinam no palco da vida todas as suas festas e tragédias, paradoxalmente! Unindo o carnal ao místico, através do Tao, o erótico, social e lírico, o poeta aqui em questão nos apresenta uma poesia vibrante que nos acorda de um ponto pacífico para a criticidade do mundo.

Teatrauma tem muito de fulgurante, de luminoso e ao mesmo tempo obscuro, revelando os tons noturnos e diurnos da vida. Tirando os homens de seu sono inicial, o poeta nos acorda para o real que nos aprisiona numa caverna soturna. Ilumina e esconde por vezes o palco do mundo que nos acorrenta num universo de medos e segredos. Ele diz: “o gosto das suas sensações me lesiona a língua”. O sensório é faca doentia a nos cortar a pele sensível e domesticada pela leveza. A poesia de Candéas tem muito do peso da face cruel da realidade. Rasgar nossa pele frágil nos faz sentir a dor do mundo. Com o temor e a compaixão da tragédia, nos comovemos e sentimos a dor de estar no mundo. O poeta se admira frente ao dilacerante código da Terra.

Portanto, Bruno Candeás não nos revela uma face tranquila. Ele nos apresenta o redemoinho em que vivemos com suas danças e violências. Num êxtase nada sutil de seus versos, navegamos no turbilhão agitado e acelerado de sua poesia, nos mostrando que a vida é mais que papel branco. Ele é manchado de sangue e sofrimento. Um trauma que precisamos enfrentar pela força da palavra deste poeta inovador e original.


ALEXANDRA VIEIRA DE ALMEIDA | Escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ)

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