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Correntezas | O mito do tradutor invisível | Pedro Lima (Curitiba, PR, Brasil)

Pedro Lima (Curitiba, PR, Brasil)

Por ser uma atividade que atravessa a história da humanidade desde os seus tempos mais antigos, a tradução está cercada por uma série de paradigmas e opiniões que estão cristalizadas tanto entre pessoas que nunca estudaram o funcionamento das línguas em geral quanto na própria comunidade de acadêmicos de Letras. Neste breve ensaio, tentaremos problematizar e questionar as noções tradicionais das atividades atribuídas ao tradutor de textos literários.

Por noções convencionais, entendemos o pressuposto de que, ao passar um texto de um idioma (doravante língua de partida) para outro (doravante língua de chegada), é obrigação do tradutor não se posicionar quanto ao seu conteúdo, não emitir juízos de valor ou modificar a mensagem central do texto.

Essa ideia já pode ser discutida quando buscamos o significado de “língua” num dicionário online:

8)(LING) Para Ferdinand de Saussure (1857-1913), linguista suíço, sistema abstrato de signos, subjacente à fala e à escrita, usado por uma comunidade e que se opõe à sua realização individual; langue.

9) Conjunto de modos de expressão particulares, dentro de um mesmo idioma, que reflete fatores determinados por idade, profissão, área de saber, ambiente sociocultural etc.: A língua dos jovens tem características bem peculiares. (MICHAELIS, 2016)

Se para Saussure cada língua é um sistema de signos usado por uma comunidade, como esperar que outra comunidade tenha signos correspondentes aos criados por ela? E se a língua é influenciada por fatores socioculturais, como esperar que esses mesmos fatores estejam em todas as comunidades de falantes existentes no planeta, para que haja uma correspondência exata?

Para que possamos examinar essas perguntas com mais precisão, suponhamos que um tradutor tenha que traduzir, do espanhol para o português, o seguinte diálogo:

¡Te permito decirme solamente una palabra más!

– Plancha.

Esse simples diálogo já encontra um grande problema: o verbo em espanhol planchar significa em português passar roupa, ou seja, seu significado não tem apenas uma única palavra na língua de chegada. Se o tradutor optar por usar essa construção, terá que alterar o texto para “duas palavras mais” ou “algumas palavras mais” – e, caso esse diálogo fosse o resultado de uma briga tensa entre duas pessoas, a intensidade do “una palabra más” estaria dissolvida nas opções usadas pelo tradutor. Dessa forma, o efeito causado pelo diálogo já não seria mais o mesmo no texto traduzido.

Essa discussão em torno dos verbos tende a se tornar mais espinhosa quando pensamos em línguas mais distantes: em inglês, por exemplo, existe o verbo to borrow, que significa em português pegar emprestado. Novamente, vemos que uma tradução feita ao estilo palavra por palavra não funcionaria num texto em que esse verbo estivesse presente.

Além dessa discussão em torno dos verbos, também é necessário levar em consideração o fato de que cada palavra carrega subjetividades e significados únicos, de modo que encontrar uma mera correspondência não é sempre possível. Os adjetivos do português branco e alvo, por exemplo, não são sempre intercambiáveis. Um lusófono certamente sabe o que significa chocolate branco, mas, com certeza, acharia muito estranho alguém dizer que gosta de chocolate alvo. Sobre essas nuances contidas em cada palavra, é possível portanto constatar que:

[…] a utilização da palavra na comunicação verbal ativa é sempre marcada pela individualidade e pelo contexto. Pode-se colocar que a palavra existe para o locutor sob três aspectos: como palavra neutra da língua e que não pertence a ninguém; como palavra do outro pertencente aos outros e que preenche o eco dos enunciados alheios; e, finalmente, como palavra minha, pois, na medida em que uso essa palavra numa determinada situação, com uma intenção discursiva, ela já se impregnou de minha expressividade. Sob estes dois últimos aspectos, a palavra é expressiva, mas esta expressividade, repetimos, não pertence à própria palavra: nasce no ponto de contato entre a palavra e a realidade efetiva, nas circunstâncias de uma situação real, que se atualiza através do enunciado individual. Neste caso, a palavra expressa o juízo de valor de um homem individual (aquele cuja palavra serve de norma: o homem de ação, o escritor, o cientista, o pai, a mãe, o amigo, o mestre, etc.) e apresenta-se como um aglomerado de enunciados. (BAKHTIN, 1997, p. 313)

Pensemos agora em exemplos ainda piores: em seu poema Meu Sonho, o escritor brasileiro Alvares de Azevedo inseriu uma grande quantidade de consoantes oclusivas dentais, gerando um interessante efeito sonoro que tem por intuito de imitar o trotar de um cavalo (CANDIDO, 1985 p. 41). Como traduzir esse poema para um idioma em que não existam consoantes oclusivas dentais, ou, saindo da discussão apenas fonética, para línguas cujos seus falantes nunca viram um cavalo na vida e, portanto, essa palavra inexiste para eles? Essa situação hipotética também nos mostra que a tarefa do tradutor não é simples; pelo contrário, é um emaranhado de problemas que, ao que tudo indica, são quase infinitos.

Diante desse fato ao mesmo tempo fascinante e assustador (a unicidade absoluta de cada língua em si mesma), resta-nos tentar responder: qual o papel do tradutor? A resposta a essa pergunta já é um pouco mais óbvia: buscar, após uma análise detalhada e sistematizada do texto, equivalências que tornem possível a leitura do objeto a ser traduzido na língua de chegada. Toda tradução implica, em diferentes níveis, na realização de adaptações. Obviamente, como elas serão feitas não é uma pergunta que oferece respostas simples e levianas e vários intelectuais se debruçam há séculos sobre essa discussão.

O tradutor e acadêmico estadunidense Lawrence Venutti, por exemplo, divide as traduções em duas grandes categorias: a estrangeirizadora e a domesticadora (VENUTTI, 2000, p. 7). A primeira não se preocupa em tornar o texto acessível à língua de chegada e prima pelo que chamamos de concepção ortodoxa de tradução no início deste ensaio. Desse modo, toda tradução estrangeirizadora teria detalhes que indicariam ao leitor que ele está diante do estranho, do excêntrico. A segunda, por sua vez, não vê problemas em adaptar o texto, por vezes realizando modificações deveras substanciais na obra: para esse tipo de tradução, por exemplo, é bastante aceitável que, ao traduzir um romance do inglês para o português, uma personagem chamada “Mary” vire “Maria”.

Pensando em outros teóricos, podemos também recorrer à opinião do famoso escritor italiano Umberto Eco sobre esse assunto: para ele, toda tradução é uma “negociação” (ECO, 2007, p. 19) entre os dois idiomas e, sendo assim, uma tradução será sempre “quase a mesma coisa” que o original – ou seja, ele acredita que alcançar a precisão absoluta nesse caso é uma tarefa impossível. Dessa forma, é obrigação do tradutor se posicionar quanto ao texto a ser traduzido.

Não defendemos, em hipótese alguma, que o tradutor sempre tenha “carta branca” para fazer o que bem entender em seu trabalho. O que buscamos foi trazer à luz ideias bastante problemáticas que atravessam esse assunto e, assim, mostrar que algumas delas são insustentáveis quando obtemos evidências empíricas advindas da realidade concreta. Com base no conteúdo desse texto, concluímos que, ao se omitir, o tradutor está fadado a produzir um texto artificial e hermético, sem vida própria. Por conseguinte, somente ao abandonar a esperada invisibilidade que se espera dele e deixar clara a sua presença na relação entre o autor e o leitor estrangeiro, é que o tradutor poderá enfim realizar um trabalho bem-sucedido.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

CANDIDO, Antonio. A Cavalgada Ambígua. In: _________ Na Sala de Aula – caderno de análise literária. São Paulo, Ática, 1985.

ECO, Umberto. Quase a mesma coisa. Rio de Janeiro: Record, 2007.

MICHAELIS. Língua. Disponível em: <http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=l%C3%Adngua>. Acesso em: 08/09/2016.

VENUTTI, Lawrence. The translation studies reader. London: Routledge, 2000.


PEDRO LIMA é graduando em Letras Português/Espanhol pela UFPR e, nas horas vagas, brinca de traduzir. Sonha em fazer um mochilão pela América Latina e encontrar algo que cure a sua insônia.

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