Subversa

Espera | Victoria Tuler (Curitiba, PR, Brasil)

"Flagra", fotografia de Morgana Rech

“Flagra”, fotografia de Morgana Rech

Bem-vindo. Senta aqui, nessa cadeira grosseira de plástico. Aguarda um minuto. Espera.

A gente vive esperando, afinal. Não custa passar por isso mais um pouquinho.

Espera para nascer. Nove meses, às vezes menos. Até estarmos prontos para o mundo, ou quando o espaço fica claustrofóbico e o barulho oco dos nossos chutes se torna insustentável.

Espera, espera. Já vai.

Você não pode fazer o que quer o tempo todo. Ninguém é feliz todos os dias. É o que eles dizem. Então, a gente assente. E espera. Espera o recreio, a aula de educação física, as férias. Espera a hora do lanche, nossa música no rádio, dia trinta e um de dezembro. Espera.

Se conforma tanto a espera, que se confina no aguardo. A vida vira meio isso – uma sucessão de esperas. Fazemos o que odiamos, sempre na ânsia de uma migalha de felicidade,  amanhã ou trinta anos depois disso. No correr da rotina, a espera é o prefixo de esperança.

Você odeia seu emprego, mas espera. Algo melhor vai aparecer. Abre uma poupança, guarda esse dinheiro. Daqui a pouco você muda. Senta aqui, nessa cadeira grosseira de plástico. Reza.

Não aguenta a faculdade, mas espera. Só mais três anos. Se forma, trabalha naquela área que você não suporta, só por um tempo. Depois disso, faz o que você quer. Eu prometo. Todo mundo age dessa forma.

Espera a empresa dos seus sonhos te oferecer uma oportunidade. Espera a aposentadoria. Espera para viajar. Espera ela te ligar. Espera para dizer que ama. Espera ele propor o casamento. Senta aqui, nessa cadeira grosseira de plástico. Espera.

Espera o fim de semana. Espera até janeiro. Me espera. Espera um sinal. Espera o milagre. Espera até a palavra “espera” ter uma sonoridade estranha, de tão banalizada. Espera. Espera sim.

Espera o momento certo, se quiser, mas saiba de antemão que o momento certo não espera por ninguém. O tempo é uma ilusão, mas devora carne e ossos. Nunca seremos mais jovens que hoje, quando somos mais velhos que nunca. Espera, espera sim. Após a fila da espera, só há a morte. E, se a gente espera demais, nessa cadeira grosseira de plástico, perde a hora. A grande espera acaba quando se menos espera.

A espera é uma grande cadeira grosseira de plástico. Cuide para não dormir sentado nela.


VICTORIA TULER, nascida em 1995. Mora em Curitiba, mas esqueceu o coração em Moçambique, onde morou por um tempo. É redatora, roteirista e escritora de gaveta. Demorou dez anos para mostrar seus textos ao mundo, mas, finalmente, cansou de esperar.

Marcado com:

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Rico 12 de agosto de 2018 em 17:23

    grande texto…muito bom…

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367