Subversa

Lançamento em Compostela | “Na Cadência do Caos”, de Carla Carbatti


capa.inddA autora Carla Carbatti lança hoje seu livro de poemas, “Na Cadência do Caos”, no Centro Galego de Arte Contemporânea (CGAC), em Compostela. Nas palavras de Katyuscia Carvalho, que escreveu o prefácio para a obra, “na poesia de Carla Carbatti, até o silêncio é molhado”.

A autora já publicou alguns textos aqui na Subversa 🙂

Aqui você pode assistir ao booktrailer ou ler, abaixo, o prefácio na íntegra.


Ezra Pound já sabia: «A poesia se atrofia quando se afasta muito da música. A música se atrofia quando se afasta muito da dança.»
Carla Carbatti sabe: «[…] com o corpo todo, a primeira palavra não foi falada, ni iscrita, / a primeira palavra foi dançada.»
Uma poeta remoinha uma saia toda feita de cambraia de espuma das ondas; ela traz uma rosa-dos-ventos desvairada nos cabelos, apontando que o mundo não é onde, que o mundo se desloca pelos movimentos do corpo.
O corpo também pode ser o cais.
«Na Cadência do Caos» é evocação a um encontro no contracanto, “com um desassossego abrindo a boca do mundo”.
É essa contradança que nos desloca de tudo que fixe, defina ou estagne [raízes, origens, línguas, nomes…]. É a procura justamente fora do nome das coisas. Não há lugar para águas paradas na ventania, nessa coreografia tão vasta. Mapas e fronteiras perdem-se em si mesmos: “mi origem es donde começa uma travessia”.
Imaginemos poemas nos tirando para dançar num palco sem chão e de frente para o mar em todas as direções. “ah! o mar / eu sigo condenada às coisas líquidas e salgadas”.
Sim, tudo mar: no suor, na lágrima, no sangue, na saliva, no sêmen, em cada umidade. Tudo matéria navegável. Na poesia de Carla Carbatti, até o silêncio é molhado.

                                    é sabido que as palavras
– todas as palavras que suam na boca –
pingam nas pontas dos dedos

entre dedos
entrelinhas
entretanto

costumam infiltrar no silêncio
como se não existissem
e isso fosse um grito

No entanto corremos o risco de, levando um búzio ao ouvido, escutarmos mesmo é a ciranda de uma constelação inteira; ou o sussurro de uma só estrela fazendo de nós cadentes; ou o tinir reluzente de algumas delas quando catadas nos olhos dos pirilampos; ou ainda sendo levadas, numa madrugada, “aos pássaros do abismo”.

compactuo com as estrelas

o modo tremulante de habitar o mundo

Uma leitura aguçada nos fará perceber: é um livro onde os poemas não estão assentes no papel. As folhas apenas sugerem esse lugar-metáfora do vazio, do vão em que é possível o não-aprisionamento; superfície sobre a qual os poemas flutuam ao ritmo do seu próprio pulsar, nesse contínuo não ser [mas devir], e em que cair também é dança : incapturável.

                                 o corpo absorve tudo

                                 a chuva, a música, o silêncio, o rio

                                 e insere no mundo

                                 o ritmo de um delírio

As palavras ganham um timbre de asas de pássaro ora costurado nos lábios, ora ruflando na garganta, se abrindo contra tudo que estreite e delimite o mundo.

                 “equilibro-me num balé adulterado”

Então, caro leitor, cara leitora, se não têm medo de vertigens, concedam-se essa dança!

 

Katyuscia Carvalho

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Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Carla Carbatti 16 de novembro de 2016 em 20:36

    Muitíssimo obrigada!
    É uma alegria ter meu trabalho divulgado nessa Revista linda de forma e conteúdo!

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