Subversa

No Escoar da Luz | Pedro Belo Clara [Um Lírio sobre os Olhos]


Foto: acervo da revista


Vinham com os estorninhos, esses laivos rosáceos nascidos de lugares nunca alcançados, enchendo o céu numa lembrança de flores evoladas.

Na pele apaziguava-se o sal feito prata à densa luz do dia. O horizonte em eterna tecedura imbuía a memória no esquecimento doce dos lírios brancos. Começavam por afinar gargantas os piscos que tomavam oliveiras por palanques iluminados, e aquele nácar subtil cintilava na iminência dum índigo profundo.

As derradeiras gotas do incêndio estival lampejavam na folhagem dos álamos dançantes. Então, qual presa de encantos sem nome, dirigia-me à morada da tua boca para aí beber o âmbar último dum sol já tão sonolento.

Era o tempo do fogo das maçãs e de videiras a rebentar de vida, dum rumor de asa de andorinha latejando no peito afogado em melancolia. Lembras a canção viva dos rios em pura exaltação?

Sobre a hora acetinada, a lua florescia – com a frescura dum beijo teu.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Quando as Manhãs Eram Flor” (2016). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Conceição Lima 11 de maio de 2018 em 13:05

    Nãoo, não esqueceu os lírios….Não esqueceu o poema…
    Deixou .nos um poema lírico, de brisa e entardecer…Criou com as palavras, o véu,o cenário de céu que faz latejar os corações… Esse beijo final é a seiva viva !!!
    Adorei!!!!Gosto de trilhar os seus caminhos!!
    Beijo
    CL

  2. Pedro BC 13 de maio de 2018 em 18:44

    Muito obrigado pelas suas amáveis palavras, Conceição. Apraz-me saber que gostou do que leu, ainda que se apresentem certas mudanças. Mas, na verdade, só a forma do canal é que se alterou, pois o fluxo do rio permanece o mesmo. Quase como uma diferente forma de dizer o de sempre, embora com algum tempero extra… Um meio, portanto, de me reinventar antes que o hábito se possa instalar.
    Renovo os meus agradecimentos.
    Até breve!
    Beijos.

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