Subversa

O bebê de Antonia | Taylane Cruz (Aracaju, SE, Brasil)

foto: Li Vasconcelos

foto: Li Vasc


Fui colocada aqui e tenho de ficar. Quando cheguei foi difícil, houve choro e rebeldia, afinal ser jogada aqui sabendo perfeitamente que a minha lucidez estava intacta foi desesperador. Esperneei, mordi, urrei. O que esperavam? Amarraram-me. Quanto mais apertado era o nó daquelas correntes brancas, mais destemida era a minha força. A agulha invadiu minha carne. Senti a dor de uma ilha explorada por piratas cruéis, tendo minhas flores sendo esmagadas e meus frutos sendo saqueados sem nenhuma consideração. Enquanto os líquidos venenosos escoavam pelas minhas veias, eu adormecia. Aos poucos fui caindo num sono gélido e lá fiquei hibernada.

Depois daquela chegada tumultuada entendi que, para sobreviver aqui, precisaria construir um mundo novo. A morte nunca foi opção. Então esperei. Esperei o efeito daqueles líquidos no meu corpo passar. Aos poucos fui retomando o comando das minhas mãos, recuperando a leveza para respirar, e me reconheci intacta. Eu sempre me soube e sempre conservei a capacidade de controlar quem eu sou e isso me ajudou – e ainda ajuda – muito, mesmo sob o efeito de agressivos barbitúricos.

No dia seguinte, eu já tinha o semblante sereno. A bruma que tinha antes nos olhos deu lugar a uma nuvem clarinha e eu já podia ver meu reflexo cínico no espelho. Cinismo é a minha marca de nascença. Comecei a sorrir. A enfermeira ruiva e gorda que me acompanha praticamente o tempo todo – minha família pagou o necessário para eu tê-la ao lado – me seguia com os olhos, sempre dizendo algo desagradável em relação a todo tipo de assunto e agindo como se eu não estivesse ali. Foi com ela que comecei a construir meu mundo aqui. Sorria para ela, falava palavras embrulhadas em mel como se fosse uma criança bajulando seu adulto. Ela, quando estava de bom humor, me pegava pela mão, esfregava meus dedos e dizia como se cantasse: “Um dedinho, dois dedinhos, três dedinhos” e assim até completar os cinco dedinhos da minha mão pálida. A enfermeira gorda parecia desfrutar daquele toque, ficava eufórica e vermelha de um jeito sensual e eu fingia gostar também, embora tivesse a pele morta para carícias. Precisava ser esperta naquele começo; um gesto falso e meus dias aqui seriam prolongados.

Com o passar do tempo fui me aperfeiçoando. Nas sessões de cardiazol eu via folhas de palmeiras, sentia ventos frescos batendo no meu rosto. A maca era uma cama de seda, os corredores eram tobogãs de ouro. As enfermeiras, vestidas com aquelas roupas brancas, eram palmeiras selvagens.

Vi coisas tenebrosas aqui e continuo vendo. Mas acho que hoje já não me espanto mais. Outro dia vi uma mocinha entrar, pouca coisa mais jovem do que eu, a cara espantada, os gestos artísticos. Erguia as mãos e, ao invés de dedos, possuía pincéis que subiam e desciam numa rapidez impressionante. Eu fui criada com refinamento, sempre culta e, como sei algo de pintura, reconheci que se tratava de uma pintora talentosa. Gritava como eu gritei quando cheguei aqui, mas, ao contrário de mim, não adormeceu com as agulhas e gritou e chorou por horas até se mijar e cagar toda. Uma excrescência que já não possuo.

Semana passada, antes do horário do almoço, tivemos a refeição suspensa porque um velho anárquico, que se dizia bruxo, urinou nas panelas da cozinha e depois enfiou a cabeça no fogão. Os tufos brancos que possuía viraram cinzas. Vi a confusão acontecer sentada numa cadeira, ao lado da janela que dava para o jardim, bebendo chá. Alguém se aproximou e se indignou com a minha fleuma diante daquele pandemônio. Sorvi um gole do meu chá de camomila – um luxo pelo qual minha família também paga -, cruzei as pernas e disse apenas: “Ele pôs a cabeça no fogo porque quis”.

A pessoa – não lembro de quem se tratava, às vezes é difícil lembrar a fisionomia das pessoas por aqui,  os nomes então… não dá para lembrar tudo, e vamos considerar que eu acabara de voltar do meu choque de insulina matinal – me olhou com ódio, dizendo que eu devia ser um tipo muito perigoso de sociopata. Permaneci como estava, angustiada, pois meu chá começava a esfriar. Aí a tal pessoa convocou enfermeiros e fui parar no corredor de eletrochoque. Anestesiada pelo efeito da camomila, como as águas tranquilas de um rio, fui. Sem marulhas, desemboquei naquele que é o pior setor daqui. E foi lá que conheci Antônia.

Depois das sessões “emergenciais”, colocam-nos todas juntas num quarto sem o menor conforto. Quando entrei, Antônia já estava lá, a barriga enorme parecendo uma lua – era a lua da minha ilha, pensei quando a vi. Tinha os olhos desencontrados, a boca rija, os cabelos escuros como folhas secas. Começou a gritar. Mais uma desgraçada!, resmunguei, até ver as outras gritando e distinguir a dor dos gritos. Os enfermeiros, pelas gretas da porta, ameaçavam dar injeção na bunda de todo mundo. Um silêncio pousou no quarto e só Antônia não parava de gritar. Estava mergulhada num rio caudaloso. Pensei: ou assumo o controle ou me faço de louca. Ainda em espasmos me arrastei até ela. Encaixei minhas pernas em cima daquela barriga enorme e usei toda a força que não me fora sugada pelas correntes de eletrochoque. Eu acreditei – e ainda acredito – que há sempre uma reserva de energia em nós e foi esta reserva que usei. Antônia gritava e eu já não pensava em nada, apenas dizia: “Esta criança vai nascer”. As gotas de suor choviam da minha testa na barriga dela e, em meio a sangue e fezes, a criança nasceu.

Peguei o bebê no colo, os pequeninos dedos, a boca roxa, a cabeça de cera deformada. Abriu os olhos e, no primeiro vagido, eu senti a sua fome. Ainda agarrado à corda ensebada, coloquei-o sobre o peito de Antônia que jorrou um mel branco sem fim.

Instantes depois me chamaram à sala da psiquiatra que, muito plácida, disse: “Foi muito corajoso o que você fez”. Agradeci o elogio – haveria de ser um elogio.

À noite, ouvi que Antônia não resistiu aos excessos do parto. A criança fora levada para uma instituição até encontrarem uma família. Nesta mesma noite fui informada de que aumentariam meu tempo aqui. Fiquei traumatizada, disseram.

Pacientemente espero. Aqui sentada bebo meu chá. Não sou burra de contar para ninguém, mas, pela primeira vez senti o efeito dos barbitúricos – antes néctar nas bordas da xícara que eu lambia com inócuo prazer. Uma loucura real arde na minha cabeça agora: os olhinhos da criança de Antônia se abrindo vivos diante de mim foram dois caquinhos de espelho.


TAYLANE CRUZ é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Sergipe, escreve contos desde a adolescência. Lançou seu primeiro livro de contos em 2015, intitulado de “Aula de Dança e Outros Contos”. Já publicou contos em sites e fanzines literários. | TAYLANECRUX@GMAIL.COM

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