Subversa

Sobre as festas, diferenças e semelhanças luso-brasileiras em 12 dias

A língua é a mesma, mas quem já teve a oportunidade de vivenciar as festas dos dois lados do Atlântico sabe as curiosidades e diferenças que marcam o jeito brasileiro e o português de comemorar o nascimento de Jesus e o adeus ao ano velho.

19 de Dezembro. Para os brasileiros sortudos, início do recesso que se estenderá até os primeiros dias de Janeiro. Grandes reencontros em família ou entre amigos, vizinhos, conhecidos, enfim, quem estiver disponível. As mães alegres e ansiosas com a chegada dos filhos a casa. Supermercados, outrora repletos de perú e panetone, começam finalmente a esvaziar-se; todos procuram garantir uma boa ceia e uma boa dose de presentes. Nos shoppings centers, a produção é cinematográfica e o Papai Noel está mais tranquilo pela presença do ar condicionado, quando na rua marca-se geralmente 30ºC em qualquer cidade do país, salvo Gramado, cidade serrana no sul onde se realiza o mais vistoso (e o mais fresquinho) espetáculo natalino nacional, o Natal Luz.

Em Portugal, o Pai Natal está prestes a chegar para aquecer os dias gelados do inverno. Sem gastar muitos dias de férias, a pensar no verão que ainda virá, o clima é de feriado festivo, familiar e, sobretudo religioso. Habitual da vida portuguesa, as atividades distribuem-se por todo o lado: nas ruas a temática natalina é explorada nas mais variadas formas e, em caso de chuva, filmes bíblicos completam a programação na televisão. Um brasileiro desavisado que procure um supermercado português na época de Natal, correrá o risco de se confundir com o feriado de Páscoa, tamanha é a quantidade de chocolates disponíveis para que os portugueses presenteiem uns aos outros. Nada de panetone, a casa portuguesa não dispensa o seu bolo-rei, símbolo natalício que se diferencia pelas numerosas frutas secas e cujo nome remonta aos três reis magos da lenda bíblica. Aliás, o símbolo culinário português, no Natal, é a mesa farta e repleta dos doces típicos, sendo a rabanada a estrela da noite enquanto um bom bacalhau fará a alegria de todos.

Dia 24 de Dezembro. Nas ruas lusas, o frio e o tradicionalismo levam todos para perto da árvore, da lareira, dos presentes e, principalmente, da comida, elementos que, para os solitários, fazem da noite uma terrível tragédia vivida com tristeza e melancolia. Eis a grande semelhança, nos dois lados, e talvez no planeta inteiro: a tristeza de quem não tem uma companhia nesta data, ainda que os brasileiros tenham as ruas e as casa noturnas cheias, além do calor e da praia para afastar o mal da solidão.

No dia seguinte, é tempo de aproveitar os restos. No Brasil, restos de perú e farofa ajudam a curar a ressaca do pessoal, enquanto em Portugal, uma boa roupa velha reúne os ingredientes num prato incrementado com miolo de pão, dando continuidade ao clima acalentador do Natal.

Dia 28 de Dezembro. Corrida de São Silvestre em Portugal, enquanto no Brasil os remanescentes que ainda não chegaram à praia estão decerto com as malas feitas. Todos querem passar o Reveillon junto ao mar.

Dia 31 de Dezembro. Corrida de São Silvestre no Brasil, mas as atenções estão voltadas para a animação, o estoque de champanhe e a escolha de uma roupa branca e uma cor de roupa íntima apropriada com os desejos para o próximo ano (rosa, significando amor, e amarelo, significando riqueza, são evidentemente os mais procurados). Fogos de artifício são armazenados em todo o lado, desde o famoso espetáculo na orla do Rio de Janeiro até um rojãozinho caseiro, fato que produz, infelizmente, notícias sobre acidentes domésticos no dia posterior. Para a ceia não poderão faltar umas boas colheradas de lentilha e cada um deverá ingerir doze uvas, uma para cada mês do ano. Na hora da virada, a maioria, já com seu espaço reservado na areia, faz oferendas à Iemanjá, dando sete pulos consecutivos sobre as primeiras ondas que vierem dar aos pés, abençoando por fim a chegada do novo ano.

Em Portugal, o frio não desencoraja ninguém a festejar nas ruas, apreciando o espetáculo de fogos organizados pelas câmaras de cada cidade. Supersticiosos à sua maneira, na ceia portuguesa também se deverá comer doze uvas (porém passas) e o banho de mar gelado, em pleno inverno, no primeiro dia do ano, faz deste ritual uma prova de resistência admirável dos portugueses, que de igual modo veem no banho de mar um ato de renovação e separação dos mundos.

E assim separa-se o antigo do novo e a esperança de um ano melhor volta a encher os corações dos dois lados do oceano. Apesar de tantas diferenças, é e sempre será o mar, o guardião da união destes dois países irmãos.

Bolo-rei: bolo redondo, com buraco no meio, de uma massa fofa recheado com frutas secas e uma fava no centro.

Roupa velha: sobras de comida misturadas com miolo de pão umedecido, também feito com partes não utilizadas do peixe, como a cabeça e o rabo.

Reveillon: uma curiosidade que talvez muitos saibam, mas o verbo “se reveiller”, em francês, significa “despertar, acordar”, de modo que “nous reveillon” se traduz literalmente por “nós despertamos”.

Rojãozinho ou foguete: fogo de artifício caseiro, proibido em muitos locais.

Iemanjá: um dos orixás africanos incorporados na cultura brasileira  como uma entidade do Candomblé, conhecida como a rainha do mar. É fortemente representada na música e na arte brasileira em geral.

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1 Comentário

  1. Aurea Vitoria 21 de Março de 2017 em 17:32

    Amei o site!! Parabens!

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