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O Amor de Sebastião | Resenha do livro “Um Amor”, de William Soares

por Revista Subversa


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Escrever sobre o amor é, ao mesmo tempo, o mais óbvio e o mais urgente. Nunca é vã a palavra que tenta descrever o indescritível e estimar o que nos escapa.  Escrever uma obra já é, em si, tentar redescobrir o amor. Não há obra sem um mergulho no que faz o coração do artista pulsar. Não há obra sobre o amor sem uma colocação extrema de si, daquilo que se sabe sobre o próprio e único jeito de amar. Mesmo que a história seja narrada em terceira pessoa, quem ama é, no fundo, a própria voz poética. Generosa, por compartilhar com o mundo uma nova forma de amar; individualista, porque todo o amor parte de um profundo encontro consigo mesmo.

Quando todos procuram colocar no papel seus amores, dores e angústias narcísicas, William Soares publica doze contos, unidos sob o título “Um Amor”. No segundo deles, já fica claro para o leitor: não se trata de doze em um, mas ao contrário, um em doze. Um amor em doze histórias que o tornam o personagem principal, robusto, destemido e consistente, que circula pelas ruas do Rio de Janeiro, carregando seus dramas com a persistência de um herói.

Estamos diante da cidade maravilhosa, está tudo lá. A narrativa não apenas deixa ver a diversificada paisagem carioca que o autor apresenta, mas faz a paisagem acontecer vividamente, com um texto que explora na linguagem o seu máximo potencial fotográfico. William não narra o Rio de Janeiro, William faz o Rio de Janeiro tomar vida em palavras que passam a ser o Rio. “Um Amor” não acontece no Rio; “Um Amor” é o Rio, com todas as suas contradições, velocidades, silêncios e intensidades. A cidade, na escrita de William, é mais do que um cenário, é elemento vivo que nos transporta para lá e para dentro de nós mesmos, ainda que estejamos lendo do outro lado do mundo.

“Ele corria e corria em direção ao cartório, pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana, agora no fluxo dos carros, apostando corrida, querendo chegar mais rápido do que eles ao destino, porém, mais uma vez, sendo interceptado a cada esquina, a cada sinal, que se tornava vermelho assim que ele se aproximava”.

William Soares

Como abertura para cada conto, uma fotografia do próprio autor deixa o leitor descansar a imaginação empregada no passeio literário, disperso em alguma das múltiplas imagens ritmadas que o texto apresenta. As fotografias registram cenários turísticos e anônimos num jogo de contrastes, justamente o que a capital fluminense tem de mais útil à poesia: belezas de variadas formas e ângulos onde os poetas costumam repousar um olhar irreproduzível. Assim, a sequência de contos oferece uma experiência estética mais parecida com uma exposição visual – o cenário é como uma pintura viva, que se mexe, mas que não abandona jamais o registro estético que emoldura o conto, sem deixar escapar questões universais da complexidade humana, que independe da cidade ou país de origem.

“Nuvens cinza se acolchoavam no horizonte e um vento frio e úmido se lançava sobre os cariocas mal-humorados pela ausência de sol. Recebi um telefonema por volta das dezenove horas. Deixei meu corpo pesado cair lentamente no canto escuro da sala e chorei longamente”.

William Soares

Trecho do prefácio de Cláudio Aguiar.

Trecho do prefácio de Cláudio Aguiar.

A questão estética do livro é enriquecida por uma característica instigante: a ausência de nomes próprios para os personagens, encerrados pelo uso do pronome pessoal na terceira pessoa aparece como elemento que sugere várias possibilidades de leitura. Por um lado, são personagens carregados de densa profundidade psicológica, marcados pela autenticidade do seu existir, expostos ao leitor de maneira apaixonada e entregue. Por outro lado, são pessoas que podem ter qualquer nome, sugerindo um efeito estético que teria a força de aproximar o observador de si próprio, fazê-lo permanecer na incerteza, nesse estranhamento que é conhecer alguém sem saber o seu nome. Quem somos, sem o nosso nome?

A leitura, assim, vai sendo cada vez mais movimentada pela força dos contrários, capaz de movimentar as próprias contradições do observador, silenciosamente, como a estranha sensação que acompanha nossa existência diante das contradições que experimentamos e compartilhamos social e mentalmente; por isso a experiência da leitura é transformadora. Bakhtin nomeou de “polifonia” a capacidade de uma obra trazer tamanha complexidade, que envolve completamente o leitor no jogo interminável entre personagens e cenas que já não são possíveis de separar completamente daquilo que foi lido e transportado para lá. Em “Um Amor”, a viagem é agradável e apaixonante, como uma melodia de bossa nova que, se procurarmos bem, ainda está em todo lado das calçadas, morros, praias e botecos do Rio de Janeiro.

“A cidade do Rio de Janeiro, agora, parecia silenciosa e distante, tão longínqua quanto o Portugal sonhado por um luso em meio à solidão do mar que lhe parece sempiterno. Ela não conseguia abrir os olhos, que continuavam inchados. Chorava e soluçava com os olhos afogados”.

William Soares

Resta, dessa experiência estética que propõe William Soares, um confronto com o amor em seus mais diversos formatos, esconderijos e excessos. Andar pelos caminhos felizes, incertos, obscuros e transformadores que só um amor pode fazer sentir. E se, no desejo e na luta pelo amor, às vezes perdemos os próprios limites de nossa identidade, na literatura em questão a mesma imprecisão se coloca e insiste em ficar, William não define o amor, não busca a definição; descreve incansável e precisamente o amor, sem lhe tirar o mistério e a sua infindável falta de sentido. Cabe a cada um, a partir daí, descobrir se o amor reside nas pessoas, na cidade, no tempo ou, ainda, em algum lugar que ainda nem sequer conhece dentro de si.


Morgana Rech e Tânia Ardito


Clique aqui para saber mais informações sobre o livro e o lançamento, que terá lugar na Livraria Travessa de Ipanema, no dia 05 de julho de 2016!

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